Um levantamento da empresa de genômica pessoal brasileira Genera, que vende serviço de análise do DNA para desvendar as origens dos ancestrais de cada cliente, confirmou que, por parte de mãe, há uma forte presença de ancestrais negras e indígenas entre os brasileiros (56%), enquanto no DNA herdado pelo lado do pai predominam os europeus (80%). Há mais variação regional na herança materna.
A análise confirma o que foi concluído por um estudo dos
mestiços brasileiros publicado em 2020. Em ambas as ocasiões, comentaristas,
cientistas e até geneticistas envolvidos nos estudos alegaram que a causa
principal, talvez única, da desproporção entre as heranças materna e paterna
foi o estupro. No último mês, o doutor
em genética Renan Barbosa Lemes afirmou à Folha de S. Paulo, a
respeito da nova análise, que a mistura racial tem a ver com uma “cultura do estupro
normalizada durante a colonização”. O termo “cultura do estupro” é jargão do
ativismo feminista.
Reagindo ao estudo mais antigo, o virologista Átila
Iamarino, notório por fazer alarmismo no início da pandemia, afirmou no X que a
mestiçagem brasileira foi feita “na base de muita violência”, explicando que não
usou o termo “estupro” para “despertar menos gatilhos”. A ideia de “aviso de gatilho”,
enfatizando fragilidade psicológica, é
uma moda progressista, e sem
evidências de eficácia em proteger traumatizados. Carlos Hotta, um
geneticista de plantas, comentou na mesma rede social que “me dá arrepios só de
pensar nas causas” da distribuição genética brasileira.
Entretanto, não há, na genética de populações, métodos que
sejam capazes de demonstrar a importância do estupro nas causas pelas quais
duas populações se misturaram com participação diferente de cada sexo.
Como explicou
a Gazeta do Povo na época do estudo publicado em 2020, esses
comentários ignoram uma miríade de hipóteses alternativas e fontes causais que
contribuem para as diferenças nas heranças materna e paterna brasileiras. O
estupro é uma das causas possíveis, mas não há evidências de que seja
importante o suficiente para ser mencionado com prioridade, como está
acontecendo.
Como conta Jorge Caldeira, membro da Academia Brasileira de
Letras, em sua grande obra ‘História da riqueza no Brasil’ (Mameluco Edições,
2017), a mestiçagem começou com casamentos entre homens europeus e filhas de
caciques. A tradição pré-colônia do grande grupo étnico tupi era que o noivo
fosse morar na casa da noiva. Esses casamentos eram de benefício mútuo: “o
chefe que contava com um genro fornecedor de implementos de ferro” desfrutava
de vantagens de produção econômica e em guerras contra outros clãs e tribos, e
o genro europeu ganhava acesso à extração de pau-brasil.
Estudos rigorosos de comparação
entre culturas mostram que as mulheres, em quase toda cultura, valorizam a
capacidade de prover de seus pretendentes. A maior capacidade de prover itens
raros dos primeiros homens europeus é clara, adicionando um elemento de
interesse sexual e romântico nas nativas que compete com a tentativa de reduzir
essas relações a estupros.
Os comparativamente menores pudores sexuais das etnias
indígenas são comentados na carta de Pero Vaz de Caminha. Em um poema sobre a
cidade da Bahia (Salvador), o brasileiro do século XVII Gregório de Matos, conhecido
como “Boca do Inferno”, diz que ela se compõe por dois “efes”: “um furtar,
outro f…”. Caldeira interpreta o segundo “f” como uma referência à “realidade
dos casamentos de aliança” e como uma descrição da “vida sexual muito animada
(inclusive a própria) fora do casamento oficial, que gera mestiços de todo
tipo”. Racista, o poeta seiscentista condenava o povo baiano, “gente asnal”,
por estimar “pretos, mestiços, mulatos” e pela “falta de vergonha”.
O truque semântico por trás da monomania explicativa
Quando se quer alterar radicalmente as ideias de uma
sociedade, um dos caminhos mais fáceis é manter a embalagem e trocar o conteúdo:
usar as mesmas palavras, mas alterar o significado do que elas rotulam. Um
exemplo disso é “estupro”. Feministas radicais e ativistas identitários
insistem que o estupro não é uma forma cruel e maligna de sexo, mas que está em
outra categoria que pouco ou nada tem a ver com sexo, mas com “poder”.
Algumas levaram a ideia tão longe que, supondo as mulheres
como uma casta inferior aos homens na sociedade “patriarcal”, o sexo
heterossexual seria sempre estupro, pois evidencia uma desproporção de poder. A
feminista radical Andrea Dworkin chegou a afirmar que o romance entre homem e
mulher é meramente “estupro decorado com olhares expressivos”.
A ideia de estupro como uma relação de poder é a que está
por trás da insistência de que, se um senhor de escravos gera filhos com
escravas, sempre será estupro, e as últimas, parte hipossuficiente, não têm voz
para consentir. Certamente há casos claros disso registrados. Mas o dogmatismo
de tentar reduzir essa relação a estupro nada tem a ver com as evidências
históricas, resultando mais da onda ideológica de identitarismo que está
tomando a esquerda.
É uma minoria dos homens que se interessa por sexo sem sinal
de consentimento da outra parte. Na psiquiatria há um
debate em curso a respeito: um lado quer transformar o impulso violador em
um transtorno, outro pensa que esse comportamento é uma parte indissociável do
sadismo em geral. Os dois lados concordam que, ao contrário do que alegam
pensadoras como Dworkin, a vontade de estuprar não é generalizada entre os
homens. Isso a torna uma candidata fraca para explicar uma mestiçagem tão rica
em números quanto a brasileira.
A historiadora da medicina e bioeticista Alice Dreger, em
seu livro ‘Galileo’s Middle Finger’ (trad. livre: “O dedo médio de Galileu”,
2015), mostra que ativistas que querem impor a interpretação de “diferencial de
poder” do estupro perseguem cientistas que tentam olhar para a questão do ponto
de vista da história natural. “É um tipo patológico de luxúria”, comenta a
autora, “mas ainda assim uma luxúria”. Dreger reflete que “não se pode levar à
Justiça e fazer a prevenção do estupro se não é compreendido por que razão,
onde e como o estupro acontece”.
Estigmatizar a mistura é dogma do identitarismo racialista há décadas
No dia 20 de novembro de 2017, Dia da Consciência Negra,
ativistas identitários de raça marcharam pelas ruas de São Paulo com uma grande
faixa em que se lia “miscigenação também é genocídio”. Neste movimento, também
ficaram populares termos como “palmitagem” para perseguir e condenar pessoas
negras que namoram, se casam e têm filhos com pessoas brancas.
Como apontou
na ocasião o antropólogo Antonio Risério, um dos maiores críticos do
identitarismo no Brasil, essa ideia tem origem na obra ‘O Genocídio do
Negro Brasileiro’, de 1978, de autoria de Abdias do Nascimento — um mestiço que
condenava a mestiçagem. Nascimento “caminhou do fascismo integralista para o
racialismo ‘made in USA’”, explicou Risério, acusando o autor de ser “confuso e
sectário”.
Movimentos de pureza racial sempre ignoraram a genética
Abdias do Nascimento condenava a mestiçagem porque “o tipo
mulato [é] o primeiro degrau na escada da branquificação sistemática do povo
brasileiro, ele é o marco que assinala o início da liquidação da raça negra no
Brasil”. Ele também faz referência ao estupro: “O processo de miscigenação,
fundamentado na exploração sexual da negra, foi erguido como um fenômeno de
puro e simples genocídio. (…) Com o crescimento da população mulata, a raça
negra iria desaparecendo sob a coação do progressivo clareamento da população
do país”.
De fato, houve uma “política do branqueamento” no Brasil.
Porém, tanto os favoráveis a isso quanto a crítica de Nascimento sofrem de uma
profunda ignorância da genética. A cor da pele é influenciada por dezenas de
genes diferentes. A tendência da pele mais escura é ter relação de
“dominância”, como chamava o pai da genética, o monge Gregor Mendel, sobre os
matizes mais claros. Isso significa que, em vez de branqueamento, a tendência
da mistura é a contrária.
Mesmo se a pele negra tivesse o padrão oposto ao dominante,
chamado “recessivo”, os geneticistas sabem desde 1908, 70 anos antes do livro
de Nascimento, que esse tipo de característica não dominante não desaparece das
populações, mas se mantém em frequências baixas constantes.
Outro que atacou a mestiçagem foi o ditador nazista Adolf
Hitler, em sua obra ‘Minha Luta’. No 11º capítulo, de título “Raça e povo”, ele
alega que “a natureza abomina o intercruzamento com todas as suas forças; e seu
protesto é demonstrado claramente pelo fato de que o híbrido é estéril ou a
fecundidade de seus descendentes é limitada”. A manobra desonesta de Hitler é
comparar a mistura de raças à mistura de espécies.
Os geneticistas já sabiam da falsidade da ideia de degeneração pela mestiçagem desde o começo do século XX, quando o geneticista botânico G. H. Shull observou, também em 1908, que híbridos eram mais vigorosos do que seus pais geneticamente “mais puros”. A ideia foi confirmada nos anos 1940, quando Hitler foi derrotado, por J. B. S. Haldane. Maior diversidade genética tende a dar vantagem para as populações, entre outros motivos, porque confere maior probabilidade de resistir a doenças infecciosas.
noticia por : Gazeta do Povo











