Resumo da reportagem:
- PIB per capita inferior: países muçulmanos estão abaixo da média global de riqueza por pessoa, mesmo com petróleo.
- Restrições culturais e religiosas: leis islâmicas limitam inovação e crescimento econômico.
- Desafios históricos e contemporâneos: há nesses países um atraso em relação ao Ocidente devido à menor liberdade e falta de separação entre religião e Estado.
“Negócio das Arábias” é uma expressão brasileira que denota uma boa forma de produzir riqueza. Mas a riqueza do mundo árabe, se medida pelo Produto Interno Bruto dividido pelo total da população (PIB per capita), é inferior à média mundial: são menos de oito mil dólares anuais por pessoa entre os árabes, comparados a 12,6 mil dólares anuais por pessoa no planeta, segundo os dados mais atualizados do Banco Mundial.
Muitos dos países árabes têm maioria muçulmana, mas o mundo
do islã vai além dos árabes, juntando os persas do Irã, muitos africanos, sul-asiáticos,
malaios, indonésios, turcos e outros. São 48 países com maioria muçulmana no
mundo. Juntos, eles têm mais riqueza que os árabes, mas ainda estão abaixo da
média do mundo, mesmo com a inclusão de grandes exportadores do petróleo como
Arábia Saudita, Kuwait, Cazaquistão, Líbia e Catar. Na média, são 9,8 mil
dólares anuais por pessoa. Entre os motivos para isso estão hábitos culturais
prescritos pelo próprio islã (confira na segunda seção).
Se excluirmos da lista os países exportadores de petróleo, a média dos 22 países restantes, entre eles Afeganistão, Bangladesh, Jordânia, Líbano, Turquia, Palestina e Paquistão, é de apenas 2,7 mil dólares por pessoa e por ano. Isso equivale a 30% da renda anual de cada brasileiro e ao que o Banco Mundial chama de “renda média inferior”.
Tradições do islã que dificultam a prosperidade
Por que esses resultados? Certamente a entrega abaixo da
expectativa do ditado brasileiro tem múltiplas causas. Entre elas estão hábitos
culturais incentivados por práticas e leis religiosas do próprio islã, como:
Limitações à inovação: o mundo islâmico tem
dificuldade para gerar grandes empresas e, comparado à Europa, tem um atraso de
dois séculos no desenvolvimento de grandes bancos. Entre outras razões para
isso, estão as limitações sobre a herança impostas pela Sharia, a lei
religiosa. Enquanto o mundo cristão priorizava o primogênito até a Revolução
Industrial, no islã a riqueza acumulada é distribuída igualmente para os
herdeiros em parcelas fixas não alteráveis pela vontade do falecido. As filhas
ganham metade da parcela deixada para os filhos homens. Esse sistema causa uma
fragmentação do legado dos pais, perdendo poder de investimento. Some-se a isso
o efeito da maior aceitação da poligamia, com potencial de diluir ainda mais a
riqueza e tirar o seu poder de ser investida em inovação. Se um filho quisesse
continuar a empresa criada pelo pai, essencialmente teria de reconstrui-la do
zero.
A Sharia também impõe regras que dificultam a colaboração
entre empresas ocidentais e as de países islâmicos. Por exemplo, a lei
religiosa estabelece que, se um parceiro de uma empresa morre, a parceria
inteira precisa ser dissolvida. Essa é a tradição, que foi ganhando exceções
com o tempo, e também resulta das regras testamentárias.
Proibição da cobrança de juros: este também é um
aspecto do cristianismo, no conhecido pecado da “usura”. Porém, diferentemente
do mundo islâmico, essa doutrina, que o islã chama de “riba”, é seguida menos à
risca no Ocidente. Além disso, apesar da perseguição milenar aos judeus nos
dois mundos das duas grandes religiões, foi em países cristãos que judeus
encontraram mais refúgio para a prática de atividades intelectuais de
contabilidade e serviços bancários. Sem o incentivo dos juros, há menos
interesse de bancos em dar capital para empreendedores com novas ideias. Por
séculos, ambos os mundos encontraram formas de driblar o veto religioso aos
juros, mas a proibição mais intensa no islã significava, por exemplo, que o
Império Otomano (o mais importante califado da história, iniciado por volta de 1300
e findado em 1922) praticasse juros bem mais altos (em torno de 20%) que os
comuns em poderes ocidentais equivalentes (cerca de 5%).
Corrupção no sistema judiciário: mais uma vez, é uma
característica das culturas de ambas as grandes religiões monoteístas. Porém, no
islã, as autoridades religiosas, que se confundem com o judiciário, não utilizam
tanto como provas em disputas judiciais os contratos escritos — tema de muitas
leis ocidentais que criam um ambiente mais ameno para os negócios — e preferem provas
orais de depoimentos de testemunhas. O estudo das decisões judiciais dos
otomanos revela um viés contrário a não muçulmanos em disputas, além de uma
presença ubíqua da possibilidade de comprar os vereditos com propina,
evidenciada pela maior probabilidade dos ricos de vencerem as ações.
Uma evidência de que a religião é importante para o estado
econômico dos países muçulmanos é que, com frequência, adeptos de outras
religiões vivendo nesses países se saem melhor que os concidadãos islâmicos. No
ano de 1848, Beirute, a capital do Líbano, tinha 55% de não muçulmanos e 45% de
muçulmanos (hoje, muçulmanos são 61,2% do país, segundo o Pew Research
Center). Naquela época, 90% dos importadores e exportadores eram não muçulmanos,
como mostrou o economista e historiador libanês Boutros Labaki em
um livro de 1998.
O Ocidente se sai melhor economicamente que o mundo
islâmico. Em seu livro ‘Domínio’ (Record, 2022), o historiador britânico Tom
Holland explica que “viver em um país ocidental é viver em uma sociedade ainda
profundamente saturada por ideias e pressupostos cristãos” como “a convicção de
que a aplicação da consciência é o fator determinante mais certeiro das boas
leis, ou que a Igreja e o Estado existem como entidades distintas, ou que a
poligamia é inaceitável”. Esses valores têm consequências na distribuição da
riqueza, no investimento em inovação e no crescimento econômico.
Além disso, a falta de laicidade no mundo islâmico leva a burocracias
e Estados mais ineficientes, numa tendência histórica de perda de poder para os
comerciantes e ganho para a elite religiosa-burocrática. O economista e
cientista político turco-americano Timur Kuran trata desse assunto em um
livro de 2011, cujo título dá nome e explica a tese completa: ‘A longa
divergência: como a lei islâmica atrasou o Oriente Médio’ (trad. livre).
Uma minoria de cerca de 14% dos muçulmanos vive sob regimes
democráticos. Diferentes estudos demonstram que a liberdade econômica, que se
confunde com liberdades democráticas em geral (o direito ao voto historicamente
foi associado à propriedade privada, por exemplo), é de extrema importância
para a saúde econômica de um país e é responsável por mais da metade
da qualidade de vida dos cidadãos medida em indicadores de desenvolvimento
humano.
Não foi sempre assim. Grandes nomes na ciência, como
Avicena, vieram do mundo islâmico, bem como contribuições ao conhecimento como
a Álgebra. Na era áurea do islã, no ano 1000, a participação dos muçulmanos na
economia mundial era muito maior e desproporcional aos seus números populacionais
absolutos mais reduzidos na época. Bagdá, no atual Iraque, tinha entre 500 mil
e um milhão de habitantes. A maior cidade da Europa era Córdoba, na Espanha,
capital do reino muçulmano de Al-Andalus. Setecentos anos depois, a
participação do islã no PIB mundial caiu de 10% para 2% — antes de serem
afetados pelo colonialismo europeu.
O mundo islâmico não é o mais pobre do planeta hoje. Mas os motivos de sua comparativa falta de sucesso com seu principal rival, o mundo cristão, tem boas explicações históricas e institucionais. Inovação não acontece sem a livre circulação de informação e liberdade de expressão. O Império Otomano, o mais longevo e extenso regime islâmico da história, proibiu, por exemplo, a imprensa de Gutenberg por dois séculos.
noticia por : Gazeta do Povo












