Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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VARIEDADES

“Janonismo Cultural”: o livro de Janones que lemos para você não precisar ler

Os últimos dias foram uma montanha russa para o deputado André
Janones (Avante/MG). O ex-coordenador de greve de caminhoneiros, alçado à fama
por ser um dos cabeças da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para a
presidência no ano passado, começou em alta no último fim de semana de novembro,
fazendo um tour pelas livrarias do país e pela Festa Literária Internacional de
Paraty (Flip), para lançar seu livro “Janonismo Cultural” (Civilização
Brasileira, 176 páginas).

Mas a gravidade cobra que corpos que se elevam voltem a cair.
Na semana passada (27), o portal Metrópoles publicou um
áudio
de 2019 em que o deputado fala aos membros de seu gabinete que eles
devem lhe devolver parte dos salários, a popular rachadinha. “Provarei para
todo o Brasil que ele cometia peculato”, disse
o ex-assessor
Fabrício Ferreira. Mas Janones não parece muito interessado
no passado, começando seu livro já na data avançada de 2022. Quando volta um
pouco, para 2020, é para dizer que foi reconhecido na rua na Bahia: “Oxente! Ó
lá o Janones!”.

Nascido no distopicamente profético ano de 1984 em Minas
Gerais, Janones confessa no livro que se valeu de fake news para a
campanha que mais tomou como bandeira política o combate às fake news e à
desinformação. “Se os bolsonaristas queriam brincar de difamação, eles tinham
encontrado um oponente à altura.” É assim que tenta justificar uma notícia que
ele dá mostras de saber que era falsa, quando foi para a porta do Templo de
Salomão, em São Paulo, e disse em uma live que “vazou um vídeo aí do
presidente Bolsonaro com a maçonaria, parece que com alguns rituais satânicos”.
Ele diz que este apelo a um dos preconceitos mais antigos do povo foi uma
retaliação à divulgação de um vídeo em que um satanista dizia apoiar Lula. Janones
confessa que não sabe se o vídeo foi “100% obra do bolsonarismo, mas pouco
importa”. A verdade pouco importa.

“Afirmei que Jair Bolsonaro tinha feito algum tipo de pacto?
Não. Mas, como foi à maçonaria, ele poderia muito bem ter feito”, insiste
Janones, como se tentasse convencer a si mesmo. “Essa live foi uma das
mais assistidas durante toda a campanha”, comemora. Ele incentiva a série de
desmandos que se seguiram às eleições: “Vamos continuar achando que é possível
conversar civilizadamente com quem literalmente caga e mija no Supremo Tribunal
Federal?”.

Há outros momentos de confissão de desonestidade no livro: quando
surgiu um burburinho de que Lula acionaria o STF para derrubar o piso salarial
da enfermagem, Janones confessa que pegou o boato e só trocou Lula por
Bolsonaro. “Me excedi”, se desculpa. A Justiça o obrigou a deletar, então a
confissão vem na esteira da condenação. Ele conta francamente que também mentiu
que Bolsonaro teria Fernando Collor como ministro caso ganhasse, outra que
justifica como retaliação por mentiras do outro lado sobre José Dirceu. Uma
notícia falsa era mesclada à outra propositalmente: a linha do pacto demoníaco
foi ressuscitada com velhas notícias sobre supostos rituais ocultistas na Casa
da Dinda. “Os bolsonaristas passaram dias desmentindo a minha novela”, gaba-se.
“Em algum momento eu menti? Apenas devolvi na mesma moeda.”

A cruzada contra fake news e desinformação se
consolidou como principal narrativa após a derrota da esquerda em 2018,
imitando o Partido Democrata americano e os eurófilos britânicos em 2016, que
também alegaram que Donald Trump se elegeu e o Brexit passou por causa de esquemas
de desinformação russa de parca comprovação, além de conspirações com dados de
Facebook de igualmente magra importância, segundo
as evidências.
Parece que, para a surpresa dessa tribo política, as pessoas
não precisam ser enganadas para se recusarem a votar nela. Suas ideias bastam
para a dissuasão.

Paula Lavigne e Eduardo Moreira abrem o livro

Confesso que o parágrafo anterior foi escrito antes de eu começar a ler a obra de Janones. Mas a tese “Brexit + Trump + Bolsonaro = fake news” é defendida exatamente como descrevi acima na apresentação de Paula Lavigne, de fama caetânica, que abre o livro. Como diz o filósofo Michael Huemer, a previsibilidade é a marca das pessoas de pensamento político simplório, pois adotam cartilhas inteiras: o que pensam de um assunto é completamente previsível do que disseram sobre outro assunto não relacionado. Lavigne ao menos dá crédito também para os memes da direita, a cujo nível Janones se elevou por ser “um comunicador excelente da contemporaneidade”. Ela diz que “o mundo não está para ponderações” — mas não confundam isso com uma defesa de táticas sujas e extremismo, OK?

O prefácio é de Eduardo Moreira. Se você não sabe quem é, o
título do perfil escrito pelo meu colega Omar Godoy já é bastante explicativo:

do MST, casado com paquita, condecorado pela rainha: o ex-banqueiro milionário
sensação da esquerda no YouTube
”. Quão fundo no buraco do coelho canhoto
vai o canal do Moreira, ICL Notícias? Para dar uma ideia, foi lá que o
radialista judeu Marcos Susskind se
ofendeu ao vivo
porque os apresentadores, após o ataque do 7 de outubro do
Hamas, estavam insistindo que Israel era a parte com intenções genocidas —
Susskind é neto de vítimas do Holocausto. A cena da resposta dele à narrativa
simpática a terroristas foi apagada do canal.

O tema que aproximou Moreira de Janones foi a reforma da
previdência, à qual o primeiro se opôs e ajudou a convencer o segundo na mesma
direção. Modesto, o ex-banqueiro se declara “um dos principais personagens na
defesa dos direitos dos trabalhadores” e elogia o colega como “um dos maiores
responsáveis pela derrota do fascismo no Brasil, escrevendo para sempre seu
nome na história”. Uma ironia que merece menção é que a única coisa
explicitamente fascista nessa história é que a CLT, que Moreira queria manter
intacta, foi “de inspiração mussoliniana”, como diz Roberto Campos em sua
autobiografia.

Derretendo diante de Lula, mas fingindo firmeza

Janones diz que cresceu admirando Lula por sua biografia,
sem saber direito qual é a ideologia que o Partido dos Trabalhadores defende
(alguém sabe?). Enquanto eu e (possivelmente) você fazíamos bigodinhos e
chifres com caneta nos santinhos dos políticos, Janones diz que colecionava esses
panfletos quando criança. Enquanto desligávamos a TV ou assistíamos ao horário
eleitoral gratuito para colecionar os candidatos mais bizarros, ele “assistia
atentamente e sempre batia à porta do comitê de algum candidato pedindo
santinhos para entregar de casa em casa”. De todos os candidatos da propaganda,
Lula “era o único que me transmitia verdade, me tocava, me emocionava e,
principalmente, me inspirava”. O publicitário Duda Mendonça não ganha crédito.

O deputado descreve a cena de quando encontrou o presidente
pela primeira vez, em julho de 2022, para iniciar as conversas que culminaram
no apoio. Janones era então um presidenciável com 3% de intenção de voto no
Datafolha. Ele cita o que ouviu de sua própria assessoria: “Se você for, sua
candidatura já era. É impossível resistir ao poder sedutor dele”. Segundo o
mineiro, ele colocou esse conselho “em prática, pelo menos em parte” para “não
me deixar levar pela emoção e lembrar a mim mesmo que estava ali como
presidenciável”.

Pode ser que em sua própria cabeça ele pense que resistiu à
sedução, mas não é o que os fatos que ele próprio narra evidenciam. Janones
topou ver Lula meras duas horas depois de se reunir com a presidente do PT,
Gleisi Hoffmann, para as primeiras tratativas da aproximação formal. O encontro
com o então candidato foi em uma suíte de hotel. Ele menciona que Lula estava
sério no começo. A sisudez inspirou no deputado a gana de interromper a quebra
de gelo de Gleisi: “peço perdão por interromper, mas não posso iniciar esta
reunião sem antes dizer o significado que tem para mim estar frente a frente
com o maior líder político vivo deste país e um dos maiores estadistas da
história da política mundial. (…) Se hoje estou dando os primeiros passos
nessa luta pra acabar com a fome e diminuir a desigualdade neste país, é porque
o senhor me inspirou”. Soa como um seduzido relutante para alguém? Teve até
foto do Ricardo Stuckert e uma selfie.

“Bolsonaro me bloqueou” e a insistência nas lives

Foi no Twitter que Janones anunciou seu apoio, se dizendo
ostracizado pelos outros candidatos: “Bolsonaro me bloqueou, Ciro não aceitou
encontrar comigo, Tebet ignorou por completo a minha existência”. Abnegado, o
deputado garante que “não tinha qualquer intenção de ganhar cargo no governo”.

“Seguir com meu mandato como deputado, cargo para o qual fui
eleito pelo povo, sempre foi prioridade para mim”, ele afirma no segundo
capítulo do livro. Bem diferente do que disse em outro
áudio vazado
após a publicação: “não tô fazendo nenhuma questão desse
mandato, renunciar hoje seria uma coisa tão natural, você sabe o que é eu não
me entristecer um milímetro?”.

Janones enfrentou o derrotismo na campanha de Lula, vindo
daqueles que acreditavam que não poderiam vencer os apoiadores de Bolsonaro nas
redes sociais. “Sei como as redes funcionam”, asseverou, “é no Facebook que
está nosso povo”. Ele menciona o poder das lives, também utilizadas pelo
adversário, mas, se é na ferramenta que está o poder de comunicação, isso não
explica a falta de audiência das lives de Lula, já no governo. O cabo
eleitoral do petista confessa que nunca leu nada sobre comunicação, aprendeu
tudo na prática, e dá dicas como “quanto menor a produção de uma imagem, maior
o impacto que ela causa”. Vídeo de estúdio também é má ideia, o visual tem que
ser de improvisação: “quanto mais natural soar, melhor”. Realmente, Duda
Mendonça não ganha nenhum crédito.

Lula estava relutante no começo, mas cedeu às lives.
Talvez seja Janones o responsável, em alguma medida, pelo problema observado
este ano no governo, do qual reclamou outro ex-marqueteiro das campanhas do PT,
João Santana: “Não se pode deixar o Lula livre, leve e solto para cometer os
erros sem advertência, sem críticas”. As gafes e escorregadas na banana, como
disseram os eufemismos recorrentes, estavam ficando numerosas demais.

Antiquado, Lula não entendia os comícios esvaziados durante
a campanha. “Como você explica isso, Janones?” O deputado apontou para o
celular: “o senhor não coloca mais 100 mil pessoas num comício, mas pode
colocar dezenas de milhões lhe assistindo simultaneamente pela Internet”. A
hipótese que Janones não ousaria mencionar: talvez a vitória do presidente se
devesse mais a uma rejeição ao outro candidato do que a uma aprovação à sua
imagem, desgastada com mais de um ano de prisão e anos de revelações da Lava
Jato.

O celular de Bebianno: outra sabida inverdade

Janones dedica um capítulo inteiro a contar que “vinha
ameaçando o bolsonarismo com uma história manjada: o celular de Gustavo
Bebianno, amigo de Jair Bolsonaro e ministro da Secretaria-Geral da Presidência
nos dois primeiros meses de 2019”. O aparelho teria informações que
comprometeriam toda a família Bolsonaro. O deputado confessa que jamais chegou
perto “desse mítico aparelho”, mas usou a notícia falsa “só para atormentá-los
mais um pouco. (…) Até eu me impressionava com minha capacidade de mexer com
eles”. Mais uma vez, como se tentasse convencer a si mesmo, o cabo eleitoral de
Lula interpreta a reação da campanha adversária como uma espécie de confirmação
do conteúdo da lorota.

Esta foi uma notícia falsa final, para fechar a campanha do
segundo turno. Janones, que acompanhou a apuração na casa de Lula, dá mais uma
mostra de sua resistência principiológica diante da figura do petista: “me
perguntou se eu aceitava uma cervejinha. Não bebo, mas resolvi abrir uma
exceção. Naquele dia ia beber uma”. Contando sobre o momento da vitória, o
deputado insiste que não pediu cargo. “O que nos diferencia de Jair Bolsonaro é
que agimos com amor e ele, com ódio”, reflete.

Qual é a solução para a política sob os ventos
instabilizantes das redes sociais? Janones diz que não gosta de usar a palavra
regulação, “porque lembra censura”. Ele votou a favor da apreciação de urgência
do PL 2630/2020, o projeto das fake news. “Mas” — recua logo após alegar
que não quer censura — “é preciso criar uma legislação extremamente punitiva
para quem produz fake news e quem ataca a democracia”.

Muitos cidadãos, de todas as visões políticas, desenvolvem
um cinismo para com a política porque votam em representantes pensando que eles
defenderão seus valores, mas depois observam um desmoronamento desse
compromisso. Alguma corrosão é inevitável, já que a democracia exige que as
partes façam concessões. Janones representa um cinismo orgulhoso de si mesmo.
Seu livro é uma ilustração das razões pelas quais “maquiavelismo” se tornou uma
palavra maldita e até parte de teorizações na psiquiatria sobre os fatores que
formam uma “personalidade
sombria
”, não apenas uma descrição de conselhos de estratégia política
eficaz de um filósofo observador. Talvez seja uma soberba de se achar um novo
Nicolau Maquiavel, uma nova mente afiada para ser usada eficazmente como parte
do arsenal de um político, o que explica as confissões do livro.

André Janones diz que antes da eleição estava tão imerso na “bolha do Facebook” que nem conseguia ver o valor de ler jornais tradicionais como este. Este antielitismo é a marca dos revolucionários. O problema dos revolucionários é que jamais podem garantir que as mudanças que prometem serão para melhor. Alguém se dispõe a afirmar que o “janonismo cultural”, a nova roupagem do velho boato sujo e do maquiavelismo sem escrúpulos, veio para o bem? Nem mesmo Janones é capaz de afirmar isso, no próprio livro. Tudo o que ele tem é a esperança de que os fins justificaram os meios.

noticia por : Gazeta do Povo

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