Cuiabá/MT, 8 de março de 2026.

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VARIEDADES

A pesquisadora que estuda o mercado de trabalho das mães solo no Brasil: 'Ganham 40% menos que pais casados'




Mariene Ramos cresceu ajudando a mãe a cuidar dos filhos de mães solo. Agora, ela busca entender como trabalham essas quase 11 milhões de brasileiras
Janaíne Meira via BBC
A pesquisadora Mariene Ramos cresceu cercada de mães solo — mulheres que criam seus filhos sem o apoio de um parceiro ou parceira.
Nascida em Ponte Alta do Bom Jesus, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes no interior do Tocantins, Mariene se mudou com a família para o Distrito Federal aos 7 anos, por motivo de doença de um irmão mais novo.
Após o falecimento deste irmão e com o pai aposentado precocemente por um acidente de trabalho, sua mãe passou a complementar a renda da família cuidando dos filhos de vizinhas em Novo Gama, cidade goiana da periferia de Brasília.
“Passei cerca de três anos morando com amigos da família para poder estudar, enquanto meus pais trabalhavam no setor de chácaras de Brasília”, lembra Mariane, que antes disso estudou em escola rural, onde alunos de diversas idades convivem em uma mesma série.
“Quando mudamos para o Novo Gama, eu já tinha 13 para 14 anos, e ajudava minha mãe com essa dinâmica, de deixar e buscar criança na escola, de fazer comida”, conta a pesquisadora, hoje com 36 anos.
“Eu eu via a luta daquelas mulheres. A maioria eram domésticas, nem todas eram mães solo — mas muitas eram. Enquanto outras eram casadas, mas não podiam contar com os maridos, por questões como o vício em bebida, então, na prática, se tornavam meio mães solo também.”
Com pai e mãe que não concluíram o ensino fundamental, Mariane se formou no ensino médio, tornou-se funcionária pública e completou duas faculdades, de gestão pública e jornalismo.
Nesse meio tempo, porém, tornou-se ela mesma uma mãe solo — tema que decidiu estudar em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
“Sem rede de apoio, após me mudar do Novo Gama para Brasília para o mestrado, precisei levar minha filha para muitas das aulas”, lembra Mariene. “Todas as aulas à noite, eu levava, então, no aniversário dela de 14 anos, ela estava em uma aula de Econometria junto comigo.”
“Foi aí que me deu mais vontade ainda de estudar sobre esse tema”, conta a pesquisadora, destacando a importância do assunto em um momento em que o Brasil passou a ter maioria de domicílios chefiados por mulheres.
Desde 2022, elas passaram à frente dos homens na chefia dos lares brasileiros, tornando-se responsáveis por 52% dos domicílios.
Nos lares monoparentais — aqueles onde apenas um adulto vive com os filhos, sem a presença de um cônjuge — a chefia feminina chega a 92%, segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Menos renda e formalização, mais serviço doméstico
Coorientada pelos pesquisadores Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, a pesquisa de mestrado de Mariene traça um retrato de como trabalham as mães que criam seus filhos sozinhas no Brasil, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022.
No estudo, a pesquisadora considera como mães solo as mulheres chefes de domicílio, com filhos e sem cônjuge. Em 2022, o Brasil somava mais de 10,9 milhões de mães solo responsáveis por domicílio, o equivalente à população total de países como Portugal ou Bélgica.
“Os estudos sobre mães solo no Brasil hoje são muito escassos”, observa Mariene.
“Sempre ouvimos falar de penalidade pela maternidade, mas tratando as mulheres como um grupo homogêneo — mas elas não são iguais.”
Penalidades pela maternidade são desvantagens profissionais e econômicas que mulheres enfrentam no mercado de trabalho após se tornarem mães, incluindo menor probabilidade de contratação ou promoção e percepção de menor competência, que se expressam, por exemplo, em rendimentos mais baixos.
Em 2022, mães solo tinham o menor rendimento médio (R$ 2.322) entre os arranjos familiares, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à renda média das mães com cônjuge — pessoas com cônjuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.
“As mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento, elas sofrem também na questão da precariedade do trabalho”, observa Mariene.
Em 2022, o grupo apresentava uma taxa de ocupação de 50,2%, inferior aos pais com cônjuges (81%) e às mães com cônjuge (53,2%).
Elas também tinham a menor taxa de contribuição previdenciária (28,3%), significativamente inferior aos pais com cônjuge (54,8%) e mesmo às mães com cônjuge (34,7%).
“Essa baixa cobertura previdenciária representa uma vulnerabilidade de longo prazo para as mães solo, comprometendo a segurança social na velhice ou em situações de incapacidade”, destaca a autora do estudo.
Analisando a população ocupada por setores da atividade econômica, Mariene observa que há uma concentração de mães solo em setores historicamente desvalorizados e marcados por baixos salários, como serviços domésticos (21,9%).
O percentual de mães solo trabalhando como empregadas domésticas é significativamente superior ao das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge (0,8%).
“Isso reforça a hipótese de que as mães solo estão confinadas em setores com menores remunerações”, destaca a pesquisadora, em sua dissertação.
Baixa escolaridade e ‘geração sanduíche’
A escolaridade é um fator importante para compreender essa precária inserção das mães solo no mercado de trabalho.
Pouco mais de 55% têm, no máximo, o ensino médio incompleto, percentual superior ao de pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos (47,9%), ficando atrás apenas dos pais solo (61,4%).
E apenas 13,7% das mães solo concluíram o ensino superior, abaixo das mulheres sem filhos (22,1%) e também das mães com cônjuge (19,9%).
Mariene destaca, porém, que a escolaridade não explica tudo, e que é preciso levar em conta também a discriminação sofrida pelas mães solo no mercado de trabalho.
“Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade, menos flexibilidade e vai render menos”, observa a pesquisadora.
“Então, ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário um pouco mais baixo.”
Analisando o perfil racial, 62% das mães solo são negras, sendo 14% pretas e 47% pardas, enquanto 37% são brancas e 2% de outras raças ou cor. O percentual de pessoas negras no grupo é superior ao do conjunto de pais solo (60%), mães com cônjuge (59%), pais com cônjuge (56%) e mulheres sem filhos (50%).
Mariene destaca ainda a questão da “geração sanduíche” — mulheres pressionadas simultaneamente pelo cuidado de filhos e de pais idosos.
No caso das mães solo, 33,5% residem em domicílios com pessoas acima de 60 anos. Essa proporção é mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%) e supera significativamente a dos pais com cônjuge (19,4%).
“Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe, então, muitas delas vivem uma jornada dupla de cuidado, ou uma jornada tripla”, diz a pesquisadora.
Por fim, ela observa que 57% das mães solo recebem algum tipo de benefício social do Estado, proporção substancialmente superior à dos pais com cônjuge (19%) e também superior à das mães com cônjuge (34%), dos pais solo (49,9%) e das mulheres sem filhos (48,6%).
A pesquisadora destaca que isso é consequência direta da falha do mercado de trabalho em absorver adequadamente a mão de obra dessas mulheres.
“Como essas mães não estão conseguindo receber [através do trabalho] um rendimento que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com benefícios”, afirma.
Creches e qualificação profissional
Para mudar esse quadro, Mariene defende que é preciso aumentar a oferta de creches em tempo integral no país.
Um estudo recente da ONG Todos pela Educação mostrou que, em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no país — ainda distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE).
Entre os mais pobres, 30,6% das crianças eram atendidas, enquanto entre as mais ricas, a taxa chegava a 60%.
O levantamento também mostrou que quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estavam fora da creche em 2024, por dificuldades de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas.
A pesquisadora do Ipea diz ainda que é preciso reconhecer o tempo de cuidado dessas mães, debate que vem ganhando espaço no Brasil, a partir da aprovação da Política Nacional de Cuidado.
Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), com base em dados da Pnad Contínua de 2019, mostra que, somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres brasileiras trabalham em média 58,1 horas semanais, ante 50,3 horas dos homens.
A carga de trabalho não remunerado das mulheres chega a 21,3 horas semanais, mais do que o dobro das 8,8 horas masculinas, “configurando uma jornada total equivalente a uma escala 7×0: todos os dias da semana, sem folga”, destacam os pesquisadores do Made, em estudo lançado neste domingo (8/3), por ocasião do Dia Internacional da Mulher.
Por fim, Mariene defende ainda que é preciso investir na qualificação profissional das mães solo, para que um maior número delas possa obter renda suficiente por meio do trabalho. Mas, para isso, ela reforça novamente a importância da oferta de creches, para que essas mães possam estudar e trabalhar.
“Hoje, eu entendo minha mãe como uma política pública ambulante”, brinca a pesquisadora, sobre o trabalho de sua mãe como cuidadora dos filhos de vizinhas. “Naquela época, eu não entendia assim, mas, hoje, entendo que é isso.”
“Precisamos olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas 11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país”, considera a pesquisadora.
“Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha”, diz Mariene.
“Precisamos inseri-las no mercado de trabalho, não de forma assistencialista, mas para que elas consigam viver do seu próprio trabalho.”
Fazendo isso, afirma a pesquisadora, será possível ter uma próxima geração, que são os filhos dessas mulheres, talvez com menos dificuldades.
“Eu furei essa bolha: me tornei servidora pública, fiz mestrado, e pretendo continuar esse estudo no doutorado. Mas, para que mais pessoas possam furar a bolha, é preciso trazer essas mulheres, essas mães, para um mercado de trabalho menos precário.”
Gráficos feitos pela Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil
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