Além de prejudicar a nossa saúde, os poluentes atmosféricos também afetam a qualidade de vida dos animais. Um novo estudo apontou o ozônio e o óxido nítrico como agentes capazes de alterar o odor das formigas e, consequentemente, fazer companheiras de colônia as atacarem como uma forma de defesa às “intrusas”.
As formigas se reconhecem através do cheiro. Por meio de glândulas, elas produzem sinais químicos compostos por uma grande quantidade de alcanos e pouca concentração de alcenos.
O problema é que enquanto os alcanos são estáveis, os alcenos são mais suscetíveis à oxidação. Poluentes atmosféricos produzidos por humanos através de carros ou atividades industriais são capazes de reagir com facilidade com os alcenos e mudar o odor dos insetos.
Assim, ao encontrar um exemplar de cheiro distinto dentro da colônia, mesmo que ele seja da mesma espécie, as formigas não irão reconhecê-lo e reagirão de forma a expulsar o intruso. O ataque pode se resumir a mordidas ou até óbito.
O estudo, liderado por pesquisadores do Instituto Max Planck de Ecologia Química, na Alemanha, teve os resultados publicados nessa segunda-feira (2/2) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.
Alterações no odor das formigas
Pesquisas anteriores já mostravam a capacidade do ozônio provocar alterações na comunicação dos insetos. Moscas-das-frutas foram observadas acasalando com espécies erradas pelo mesmo motivo. Até animais polinizadores já foram vistos perdendo o interesse por flores que tiveram o aroma modificado pela reação com o poluente.
Para compreender como o fator impactava as formigas, os pesquisadores criaram colônias artificiais de seis espécies distintas. Em cada uma delas foi removido um exemplar.
Em seguida, os animais retirados foram colocados em câmaras de vidro com diferentes concentrações de ozônio – algumas tinham as concentrações frequentemente registradas em locais poluídos. Assim que retornavam às suas colônias, as formigas “alteradas” eram atacadas pelas outras. O resultado foi surpreendente para os cientistas.
“Não esperava por isso, porque os alcenos são uma parte tão pequena [do odor das formigas]. Sabíamos que qualquer coisa que fizéssemos com o ozônio alteraria apenas cerca de 2% ou 5% da mistura”, aponta um dos autores do estudo, Markus Knaden, em comunicado.
Também foi identificado que a reação dos alcenos com ozônio atrapalhou as formigas em outros comportamentos importantes, como seguir trilhas ou se comunicar com suas larvas. Formigas invasoras clonais adultas (Ooceraea biroi) foram observadas ignorando os filhotes.
Os pesquisadores consideram os resultados preocupantes, visto que insetos cumprem papéis ecológicos essenciais para o meio ambiente e até mesmo para a sobrevivência humana, como dispersar sementes e manter a saúde dos solos.
As populações dessa classe de invertebrados estão diminuindo em níveis alarmantes pelo mundo e os poluentes atmosféricos são um fator importante para o cenário. “Devemos estar cientes de que nossas ações acarretam custos adicionais que talvez não tenhamos considerado antes”, alerta Knaden.












