Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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Papagaios dão nomes aos filhotes com sons exclusivos, mostra estudo


Papagaios selvagens usam sons exclusivos para se referir a cada um de seus filhotes, em um comportamento que se assemelha, em vários aspectos, ao modo como humanos nomeiam seus bebês.

A descoberta foi detalhada em um estudo americano publicado em julho de 2023 na revista científica Computational Biology. Segundo o trabalho, os sons não são aleatórios nem inatos. Eles funcionam como verdadeiros “nomes vocais”, aprendidos socialmente e usados para manter a organização e a coesão do grupo.

A identificação desses “nomes” foi feita a partir de gravações contínuas dos sons emitidos por papagaios desde a postura dos ovos, passando pela eclosão e pelo desenvolvimento dos filhotes no ninho.

Os registros foram analisados com softwares específicos, capazes de comparar padrões acústicos e catalogar pequenas variações nos chamados. O resultado mostrou que cada filhote recebe um padrão sonoro próprio, repetido pelos pais de forma consistente.

“O padrão é aprendido. Em experimentos em que ovos foram trocados de ninho, os filhotes passaram a usar os sons dos pais adotivos, e não dos biológicos”, explica o professor de Biologia Victor Maciel.

Reconhecimento desde os primeiros dias de vida

De acordo com Maciel, o reconhecimento do “nome vocal” acontece muito cedo. Desde o nascimento, os filhotes já respondem de maneira diferente ao som que lhes é direcionado.

“Há um reconhecimento claro do padrão de piado relacionado àquele filhote específico. Isso ajuda na organização social do bando, seja ele formado por uma única família ou por vários núcleos”, afirma o professor.

O mecanismo reduz confusões dentro de grupos numerosos e aumenta a eficiência do cuidado parental. Para o também professor de Biologia Alisson Pedrosa, a identificação individual traz ganhos evolutivos importantes.

“Em ninhos com vários filhotes, um ‘rótulo vocal’ permite direcionar alimento corretamente, responder mais rápido aos chamados e evitar erros custosos”, explica.

Esse cuidado mais preciso aumenta as chances de sobrevivência dos filhotes e, consequentemente, o sucesso reprodutivo dos pais. Além disso, o reconhecimento individual fortalece vínculos sociais, melhora a cooperação dentro do grupo e contribui para a defesa contra predadores.

Imagem mostra vários papagaios verdes voando o céu - Metrópoles
Os papagaios têm verdadeiros “nomes vocais”, aprendidos socialmente e usados para manter a organização e a coesão do grupo

Papagaios e outros animais que se reconhecem pelo som

Os papagaios não são os únicos animais a usar sinais vocais individuais. Golfinhos utilizam assobios exclusivos para cada indivíduo; morcegos reconhecem os chamados específicos de seus filhotes em colônias enormes; e elefantes emitem sons direcionados a indivíduos do grupo. Porém, os pássaros se destacam pelo grau de aprendizado envolvido.

“O diferencial dos papagaios é que o filhote aprende ativamente seu ‘nome’, que é transmitido socialmente, e não apenas determinado biologicamente”, ressalta Pedrosa. Os pesquisadores destacam que esse comportamento ajuda a entender como sistemas complexos de comunicação podem surgir.

“O nome não expressa emoção nem estado físico. Ele representa um indivíduo. Isso é um passo importante rumo a uma comunicação simbólica rudimentar”, explica o professor.

Segundo ele, o achado reforça a ideia de convergência evolutiva: papagaios e humanos desenvolveram habilidades semelhantes de forma independente, pressionados por estruturas sociais complexas.

Ambiente, ruído e impacto na comunicação

O estudo também chama atenção para fatores que podem interferir nesse tipo de comunicação. Ruídos urbanos podem mascarar os sons e levar a alterações no ritmo ou na frequência dos “nomes”.

Já o cativeiro e o isolamento social podem empobrecer o repertório vocal ou alterar o aprendizado adequado — um ponto relevante para conservação e programas de reintrodução na natureza. Embora ainda não existam estudos suficientes para afirmar que esse padrão se repete em muitas espécies, as evidências vêm crescendo.

“A cada nova pesquisa, aumenta o número de espécies com esse tipo de organização vocal”, afirma Maciel.

Para a ciência, descobertas como essa colocam papagaios ao lado de golfinhos, elefantes e grandes primatas quando o assunto é complexidade social e cognitiva.

No fim das contas, dar nomes — ou algo muito parecido com isso — não é um privilégio exclusivamente humano, mas uma estratégia poderosa moldada pela vida em sociedade.



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