A documentação de novas espécies animais na natureza é essencial para compreender o funcionamento do ecossistema em que estamos inseridos. O encontro também serve para criar mecanismos de conservação para eles e sistemas de proteção para nós, caso seja um ser que traga perigo.
Por outro lado, mesmo com o avanço da tecnologia, os biólogos responsáveis por catalogar novos exemplares ainda enfrentam dificuldades para realizar o processo. Algumas delas perduram há décadas, como o acesso a ambientes remotos, enquanto outras são mais recentes, como a destruição de habitats provocada pelas mudanças climáticas.
Estimativas anteriores apontam que ao menos 70% das espécies vivas na Terra ainda não foram completamente descritas. A principal preocupação é que esses seres desapareçam antes mesmo de serem catalogados.
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles listaram os principais percalços na hora de descrever um novo animal. Veja abaixo:
Ambientes de difícil acesso
A maioria das espécies não descritas está presente em ambientes de difícil acesso, como as profundezas dos oceanos ou zonas de mata fechada pouco exploradas. Estima-se que menos de 20% da biodiversidade marinha é conhecida, por exemplo.
O diretor de pesquisa e inovação do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), Andrei Polejack, aponta que além dos ambientes marinhos serem extremos, há um obstáculo financeiro para a exploração em oceanos.
“Expedições oceânicas em regiões abissais, fontes hidrotermais e montes submarinos demandam embarcações, equipamentos sofisticados e equipes multidisciplinares”, diz o especialista.
Já em terra, locais muito remotos, como a Amazônia, são difíceis de serem explorados e podem guardar diversas espécies escondidas. Muitas vezes, os pesquisadores recorrem a mateiros — pessoas locais que conhecem profundamente a flora da região –, mas com o passar do tempo eles estão cada vez mais escassos.
“O conhecimento tradicional tem se perdido ao longo das décadas, e está cada vez mais difícil encontrar pessoas com o saber. Elas são fundamentais para o sucesso das expedições e precisam ser valorizadas”, ressalta a professora Vanessa Staggemeier, do departamento de ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Destruição de habitats
O avanço do aquecimento global provocado pelas mudanças climáticas também afeta fortemente a busca por novas espécies, tanto pela destruição dos habitats quanto pela morte dos animais que não se adequam às alterações.
“No Cerrado temos muitas fitofisionomias e rios, o que potencializa a diversidade da vida, mas há um desafio de perda de habitat muito grande, pela expansão do agro e queimadas fora de época, que podem estar eliminando essas espécies ou até mesmo deslocando-as para outras áreas, e prejudicando o acesso e descrição”, exemplifica o professor de biologia Hudson Monteiro, do Colégio Marista Champagnat – Taguatinga, no Distrito Federal.
Falta de taxonomistas
A taxonomia é uma área da Biologia responsável por descrever, identificar, nomear e classificar os seres vivos. O problema é que há uma escassez crescente de especialistas do ramo no mercado atualmente, devido à falta de incentivos durante a graduação.
“Os laboratórios das universidades por toda a região tropical estão repletos de espécies novas esperando ansiosamente para serem catalogadas e referenciadas, mas essa tarefa envolve muito empenho e mão de obra, nem sempre disponíveis”, conta Monteiro.
Espécies muito pequenas
Como qualquer floresta ou oceano são ambientes extremamente cheios de detalhes, quanto menor é uma espécie, mais difícil é encontrá-la. Além disso, algumas delas estão localizadas em lugares inóspitos, o que dificulta ainda mais o trabalho dos pesquisadores.
Falta de infraestrutura e investimentos
Para a realização de expedições exploratórias, é necessário ter dinheiro para se manter no local e ter o mínimo de infraestrutura para alimentação e deslocamento. Os recursos financeiros também são essenciais para ter materiais adequados para as coletas biológicas.
Grande parte das missões em busca de novas espécies é vinculada a universidades. Quando há corte de verba destinado às instituições, os cientistas são diretamente prejudicados. Por isso, é essencial o apoio e financiamento federal à ciência brasileira.
“Descobrir novas espécies não é apenas uma questão de curiosidade científica. Trata-se também de compreender o funcionamento dos ecossistemas e as inter-relações entre as espécies. É importante identificar recursos genéticos com potencial biotecnológico e subsidiar políticas públicas de conservação, fortalecendo a soberania científica sobre a biodiversidade brasileira”, conclui Polejack.












