Moradores do Complexo da Maré, conjunto de comunidades na zona norte do Rio de Janeiro, enfrentaram dificuldades para votar no primeiro turno das eleições gerais, em 4 de outubro. Cerca de 17 mil eleitores tiveram o local de votação alterado neste ano, em relação ao pleito de 2024.
Foi o caso de Rejane Barcelos, moradora da Vila do João. Ela costumava votar perto de casa, mas foi direcionada neste ano para uma igreja em outro bairro.
“Eu votava numa escola perto da minha casa, e aí, quando eu fui ver, que eu fui conferir, falaram que tinham tirado as zonas eleitorais lá da Vila do João, que tinha mudado lá para a Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso. Eu nunca tinha ido nessa igreja. E lá não passa ônibus perto, não passa nada perto. Ainda bem que eu tinha um dinheirinho para poder pedir um Uber.”
A alteração do local de votação este ano foi decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), com o objetivo de retirar as seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou dominadas pelo crime organizado. Segundo o TRE, os novos locais de votação ficam fora de áreas controladas pelo tráfico de drogas ou por milícias, afastados de territórios dominados por facções rivais e o mais próximo possível de cada local de votação substituído.
No estado, 72 locais de votação foram alterados em relação a 2024 por questões de segurança. As mudanças ocorreram em 20 cidades, incluindo a capital. A medida afeta cerca de 202 mil eleitores.
Em relação ao local de votação do primeiro turno das eleições 2026, o Rio de Janeiro terá alteração em apenas um endereço: no bairro de Brás de Pina, na zona norte da capital fluminense (seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª zona eleitoral), informou o TRE.
Abstenção
De acordo com levantamento feito pela Agência Brasil com base nos boletins de urna, que mostram o total de votos de cada urna eletrônica, a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram o endereço transferido chegou a cerca de 31%, superando os aproximadamente 21% da média nacional.
O estudo “Como vota a Maré”, elaborado pela organização não governamental Redes da Maré, afirma que os dados não permitem estabelecer uma relação causal direta entre a mudança dos locais e a abstenção, especialmente porque houve crescimento do eleitorado, “mas reforçam a preocupação com as barreiras de acesso produzidas pelos deslocamentos para fora do território”. No domingo do primeiro turno, o TRE não relacionou o aumento da abstenção à mudança de local de votação.
Segundo o levantamento da Redes da Maré, a abstenção deste ano foi maior que a de 2024 (28%), quando o conjunto de comunidades também tinha passado por mudança massiva de locais de votação. Nas contas da ONG, em quatro anos, 50% dos eleitores tiveram novos pontos de exercício do voto. Para a instituição, o impacto dessas mudanças envolve, principalmente, questões de acessibilidade e mobilidade urbana, pois altera rotas de deslocamento entre residências e seções eleitorais, em especial de eleitores que antes votavam dentro da Maré.
Mobilização
Para orientar moradores e tentar reduzir a abstenção no conjunto de comunidades, a Redes da Maré realiza até sexta-feira (23) a mobilização “Esquinas por Direitos”, conversando com os moradores sobre o direito ao voto, explica a analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso:
“O trabalho da Redes da Maré, nesse momento, é estar nas ruas, é trazer a dinâmica do debate sobre o voto, do debate sobre a participação e a importância da participação democrática exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa. Não só porque é um direito individual, mas porque é um direito individual que impacta coletivamente o território e a vida de todas nós. Então, por isso que a gente achou esse lugar de convergência, que são as ruas, que são as esquinas, para estar conversando e colocando para as pessoas também algumas perguntas para que elas tenham repertório e ferramentas para decidirem sobre o seu voto e sobre o direito e a expressão desse direito ao voto.”
Os pontos exatos da ação podem ser consultados no perfil da Redes da Maré.
A ONG também divulga informações sobre o voto pelas redes sociais, o que inclui o esclarecimento de que quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no próximo domingo (25). O mesmo vale para quem ainda não tem a biometria cadastrada. Além disso, moradores trocam informações sobre o direito democrático por meio de aplicativos de mensagens.
*Com informações da Agência Brasil












