Cuiabá/MT, 6 de março de 2026.

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Traços de DNA de lobo estão presentes em raças como labrador e chihuahua

Em 2005, Tasha tornou-se o primeiro cão doméstico a ter seu genoma sequenciado, inaugurando uma nova era na genética canina.

“Depois, tudo se abriu”, disse Elaine Ostrander, do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, na sigla em inglês), nos EUA. A especialista em genômica canina fazia parte da equipe que sequenciou a boxer.

Nas duas décadas seguintes, cientistas sequenciaram os genomas de milhares de cães, de todas as formas e tamanhos, vivendo em todo o mundo e alguns datando de milhares de anos atrás.

Pesquisadores vêm comparando esses genomas e cruzando-os com outras informações, como as de estudos comportamentais e as de registros de pedigree.

Oito novos artigos sobre genômica canina, publicados pelo periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) na última segunda-feira (24), são amostras do resultado desse esforço.

Esses trabalhos indicam, por exemplo, que a diversidade genética dos pastores-alemães despencou após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e que quase dois terços das raças modernas de cães, entre os quais os chihuahuas, contêm traços de DNA de lobo.

“Estamos respondendo a perguntas que nem poderíamos começar a pensar em fazer há 20 anos”, disse o paleogeneticista Greger Larson, da Universidade de Oxford (Reino Unido). A seu ver, nem todas as respostas são simples, e há muito o que aprender. “Mas fizemos um enorme progresso.”

A série de artigos foi editada por Ostrander, Larson, Kathryn Lord, da Escola de Medicina UMass Chan (EUA) e do Instituto Broad (EUA), e William Murphy, da Universidade Texas A&M (EUA).

Veja algumas das descobertas:

Diversidade em pastores-alemães

Muitas raças modernas de cães são altamente endogâmicas, tornando-as suscetíveis a uma variedade de sérios problemas de saúde. Mas existem dúvidas sobre exatamente quando e como a diversidade genética desapareceu das populações de raça pura.

Uma possibilidade é que a queda na diversidade genética remonta principalmente ao século 19, quando muitas raças modernas foram criadas a partir de um pequeno número de cães fundadores. Embora esse fenômeno tenha aparentemente ocorrido em pastores-alemães, as quedas mais significativas na diversidade não vieram até a segunda metade do século 20, de acordo com um dos novos estudos, cujos autores incluíram Scarsbrook, Larson e Ostrander.

O que aconteceu?

A população de pastores-alemães despencou durante a Segunda Guerra. Depois disso, os criadores dependeram especialmente de um punhado de “reprodutores populares”, ou cães machos com características mais desejáveis.

Muitos dos pastores-alemães nos EUA, por exemplo, podem traçar sua ancestralidade de volta a um cão conhecido como Lance of Fran-Jo, cujas costas inclinadas são agora comuns na raça.

DNA de lobo

Cães descendem de lobos, contudo o cruzamento entre os dois tipos de caninos parece ser notavelmente raro. Cientistas que já examinam o genoma canino identificaram poucas evidências de que o DNA de lobo continuou a fluir para as populações de cães após sua domesticação.

Em um dos novos estudos, no entanto, cientistas aplicaram uma técnica estatística mais sensível para analisar milhares de genomas caninos. E encontraram quantidades baixas, mas detectáveis, de DNA de lobo pós-domesticação em quase dois terços das raças modernas de cães, incluindo labradores retrievers, cocker spaniels e chihuahuas.

A ancestralidade de lobo constituía apenas 0,14% de seus genomas, em média. Entretanto, raças grandes tendiam a ter mais ancestralidade de lobo do que raças pequenas, enquanto cães de trenó e de caça tinham mais do que terriers e farejadores, por exemplo.

Os cientistas também detectaram DNA de lobo em cães que vivem nas ruas. E muitos deles, descobriram eles, tinham DNA de lobo em genes ligados ao sentido de olfato.

“Isso parece sugerir que havia algum tipo de vantagem adaptativa talvez”, segundo Audrey Lin, pesquisadora de pós-doutorado no Museu Americano de História Natural e uma das autoras do artigo.

Testes de DNA canino para comportamento

Alguns testes de DNA canino prometem oferecer aos tutores novas percepções sobre o temperamento e comportamento de seus animais de estimação, revelando, por exemplo, se possuem variantes genéticas que foram associadas à sociabilidade ou ao medo.

Mas, em um estudo com 151 das variantes que foram vinculadas ao comportamento canino, cientistas descobriram que nenhuma delas previa com precisão o comportamento de cães individualmente.

Os estudos que originalmente identificaram essas variantes, concluíram os pesquisadores, eram falhos. Em vez de avaliar os comportamentos de cães individualmente, esses trabalhos usaram a raça como um indicador do comportamento. Para identificar as bases da sociabilidade, por exemplo, pesquisadores procuraram variantes genéticas que eram mais comuns em raças amigáveis do que em raças menos amigáveis.

No novo estudo, pesquisadores utilizaram dados do Darwin’s Ark, um grande projeto científico comunitário sobre cães de estimação, para testar essas associações em milhares de cães.

Cães com uma suposta variante de “medo”, por exemplo, seriam de fato mais ariscos do que aqueles sem ela? “Não encontramos nenhuma associação com o comportamento”, disse Lord, um dos autores do estudo.

Em muitos casos, variantes que cientistas haviam previamente associado ao comportamento canino estavam, na verdade, associadas a algumas das características físicas altamente hereditárias que variam entre as raças. Por exemplo, uma variante que anteriormente havia sido associada ao medo e à agressividade se revelou associada ao comprimento das pernas e à altura.

Genes comportamentais compartilhados

As descobertas de Lord não significam que não existam genes relacionados ao comportamento canino. Mas a melhor maneira de identificar esses genes, segundo ela, é compilar e analisar grandes conjuntos de dados sobre os genes e comportamentos de cães de forma individual.

Outra equipe de cientistas fez exatamente isso em um estudo, analisando dados genéticos e comportamentais de mais de mil cães inscritos no Estudo de Vida do Golden Retriever. Os pesquisadores identificaram, por fim, 18 genes que podem estar relacionados a vários aspectos de temperamento e comportamento, incluindo capacidade de treinamento, medo de estranhos e agressão contra outros cães.

Dois terços desses genes, eles descobriram, também haviam sido associados a características cognitivas ou neuropsicológicas em humanos. Por exemplo, um gene que foi associado ao medo não social em cães —ou seja, medo de coisas como fogos de artifício e aspiradores— havia sido previamente ligado a coisas como mudanças de humor, ansiedade, irritabilidade e sensibilidade em pessoas.

“Talvez o que estamos detectando aqui é que existe um fator biológico para uma tendência a achar a vida bastante estressante”, disse a veterinária e geneticista Eleanor Raffan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), autora do estudo. “Não é que possamos dizer que é exatamente a mesma biologia acontecendo, mas isso talvez nos dê uma pista de por que os cães estão demonstrando esses sinais de medo quando estão no mundo.”

noticia por : UOL

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