A Escola Jatobazinho, localizada às margens do rio Paraguai, a quase 100 km do centro de Corumbá (MS), abriga 55 alunos, da educação infantil ao quinto ano do ensino fundamental, que passam a semana toda na escola. Em 2024, o colégio foi afetado pelas queimadas históricas que atingiram a região, um ano após o episódio, porém, os efeitos ainda são percebidos por professores e alunos.
Durante meses, a região foi tomada pela fumaça e as chamas na mata passaram a ser parte da paisagem. Até que, em junho passado, a escola precisou ser esvaziada às pressas devido à proximidade do incêndio. “A gente estava realmente cercado, então os bombeiros chegaram aqui avisando que estávamos correndo risco, porque o fogo daqui da frente [outra margem do rio] podia pular para cá”, conta a professora de educação infantil Larissa Paula Costa Mota, 28.
O episódio foi o estopim da situação que vinha se agravando desde o mês de maio — quando a região registrou os primeiros focos de incêndio do ano. As aulas foram suspensas por cerca de dez dias e, no retorno, outras queimadas apareceram pela região. Dados do Lasa (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais), da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) mostram que em 2024 o pantanal teve 2,6 milhões de hectares atingidos, 17% da área total do bioma.
A convivência com sintomas como dores de cabeça, dificuldades para respirar e diarreia, devido a fumaça, passou a fazer parte do cotidiano das professoras, que recorriam a receitas naturais, como chás, para amenizar as queixas de seus alunos.
Além dos efeitos na saúde física, a equipe começou a notar mudanças no comportamento dos alunos. A convivência com os incêndios passou a parecer normal para algumas crianças, elas brincavam com cinzas no chão como se fossem neve, frequentemente desenhavam casas queimadas, árvores em chamas e animais mortos.
“Elas estavam acostumadas, porque isso vem acontecendo todos os anos. E começou a ficar muito preocupante para a gente, não queremos que elas passem a normalizar um fogo que mata os animais, destrói a casa delas.”
Os meses em que a escola ficou tomada pela fumaça foram os mais desafiadores, a professora conta ter tentado tranquilizar os alunos e dar algum conforto para eles, mas, ao mesmo tempo, lidava com o medo e a ansiedade que a situação trazia.
“Ficava desesperada, porque eu não sabia o que fazer e estava todo mundo mal, física e mentalmente. Então, a gente passava mal à noite e acordava sem ar, via fumaça dentro do quarto; quando acordava, tinha muita fuligem nas nossas roupas, nas cobertas. E o fogo tem barulho, dá para escutar o desespero dos animais, os galhos quebrando, isso é horrível”, conta Larissa, que hoje faz tratamento para as crises de ansiedade, que surgiram no ano passado.
A Jatobazinho atende estudantes de comunidades ribeirinhas da região e funciona em um sistema de semi-internato, as crianças de 4 a 11 anos ficam na escola de segunda a sábado. Além das turmas, o colégio também abriga 33 funcionários, 20 da equipe pedagógica e 13 operacionais. O colégio é mantido pelo Instituto Acaia, organização sem fins lucrativos que atua com educação em escolas de São Paulo e do pantanal.
Famílias ribeirinhas têm uma relação muito próxima com o rio e com a floresta, já que muitas sobrevivem da pesca e do plantio de pequenas roças, explica a coordenadora pedagógica do colégio, Carolina Pio Fracaro. No entanto, a constante presença do fogo muda essa dinâmica e faz da natureza, antes sinônimo de casa, um ambiente hostil.
Um dos principais desafios para manter uma boa comunicação entre os familiares dos alunos e a escola é a distância. As comunidades são pequenas, com poucas famílias em cada núcleo, e muitas delas ficam em locais de difícil acesso com transporte feito apenas pelo rio. Muitas também vivem em situação de vulnerabilidade, com acesso precário à água de qualidade e também a serviços de saúde.
Crianças expostas a situações traumáticas —como incêndios, enchentes e outros eventos climáticos extremos— manifestam reações que precisam ser compreendidas como “respostas normais a acontecimentos anormais”, explica Reinaldo Nascimento, presidente da Associação Pedagogia de Emergência no Brasil, a organização atende crianças e jovens que vivenciaram traumas, como desastres naturais e situações de guerra.
Quando reações emocionais que deveriam desaparecer com o tempo permanecem, elas podem se tornar crônicas e evoluir para quadros mais graves: “O medo vira uma síndrome do pânico, ou a tristeza se torna uma depressão”. O sofrimento também pode se manifestar na repetição da fala, porque a criança ainda está vivendo aquela experiência.
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Segundo ele, que trabalhou com docentes do Rio Grande do Sul após as enchentes de 2023, é necessário que as escolas estejam preparadas para lidar com catástrofes naturais. Os professores precisam se preparar para um retorno à sala de aula sabendo que haverá um bombardeio de sentimentos, falas e emoções confusas
“Enquanto educador, tenho que entender que a situação que a criança viveu é pesada e traumática”, afirma ele que completa dizendo que a atuação do professor é essencial, mas não substitui o acolhimento psicológico, escasso em situações de emergência.
É importante que professores estejam preparados para acolher essas reações, criando rotinas que passem segurança e recorrendo a atividades artísticas para que os alunos expressem seus sentimentos. Os desenhos, exemplifica, podem dar abertura para diálogos sobre sentimentos que as crianças nem sempre sabem como elaborar em palavras.
Com a chegada das chuvas no final de 2024, veio a mudança na paisagem, que se tornou mais verde com a grama que cresceu, conta Carolina, a coordenadora, enquanto mostrava as áreas verdes da escola à reportagem, que chegou ao local acompanhada pelo Instituto do Homem Pantaneiro, organização sem fins lucrativos que atua na região da Serra do Amolar.
Apesar da melhora no nível do rio, as árvores ainda não se recuperaram e os pássaros que costumavam visitar as dependências da escola não voltaram a aparecer, conta ela. Para Carolina, hoje o esforço da equipe pedagógica tem sido mostrar a importância do bioma para as crianças ribeirinhas. “É trabalhar a consciência do que é o pantanal, quais são as árvores do nosso pantanal, quais são os animais, porque a gente entende que uma vez que você pertence e conhece o lugar, você cuida”, diz ela, preocupada com as condições climáticas imprevisíveis.
ENTENDA A SÉRIE
A série de reportagens “Cicatrizes no Pantanal” aborda impactos na saúde, na educação e nos modos de vida de comunidades após as queimadas históricas de 2020 e 2024 no bioma. O trabalho é parte do projeto Excluídos do Clima, uma parceria da Folha com a Fundação Ford.
noticia por : UOL












