Cuiabá/MT, 6 de março de 2026.

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Boulos desconversa sobre 'agonia' do pós-Lula e prevê eleição acirrada em 2026

A nomeação de Guilherme Boulos (PSOL-SP) para ser ministro da Secretaria-Geral da Presidência, anunciada na segunda (20), recoloca em primeiro plano o debate sobre quem será o sucessor político de Lula quando o presidente deixar definitivamente a arena eleitoral.

Candidato à reeleição em 2026, o petista terá 85 anos no fim do próximo mandato, caso seja vitorioso nas próximas eleições. Ao integrar o deputado federal à sua equipe, o petista escala mais um jogador para o time titular em torno do qual se dará o debate sobre pós-Lula.

Boulos desconversa sobre o assunto, afirmando que aprendeu com a avó, em almoços de domingo, que “cada dia com a sua agonia”.

Questionado se não haveria uma fila de políticos antes dele para o papel de sucessor de Lula, diz que não se sente sequer à vontade para discutir o assunto, já que o presidente “está bem” e fazendo um “governo extraordinário”.

Ele afirma que vai correr o país para conversar com movimentos sociais, enfrentar “a política rasteira da extrema-direita” e defender “agendas fortíssimas do governo Lula”, que “se colocou muito firmemente na defesa do povo contra os bilionários e na defesa do Brasil contra o ataque estrangeiro [dos EUA]”.

Apesar de otimista, admite que a reeleição de Lula em 2026 não é favas contadas. “No cenário polarizado em que a gente vive, o jogo político eleitoral é sempre muito acirrado. E jogo não se ganha de véspera”. afirma.

O governo Lula está dando uma guinada à esquerda?

O governo Lula é um governo de coalizão que foi eleito por uma frente ampla para derrotar a extrema direita no Brasil. E tem dentro da sua composição ministros de esquerda, de centro-esquerda e de centro.

As minhas posições são nítidas. Mas não há uma virada.

O presidente Lula já tem feito um governo voltado para os interesses populares. Ele aprovou no Congresso Nacional uma proposta para zerar o imposto de renda de 90% da população e taxar os super ricos.O presidente Lula, no 1º de maio, fez uma defesa firme do fim da escala 6×1, que é uma das principais demandas dos trabalhadores brasileiros e também da esquerda brasileira.

O presidente Lula me chamou para fortalecer essa relação com a base social, e para ter a escuta aberta para ouvir as demandas populares.

Você vai ter uma missão mais ampla, de dialogar também com o empresariado, ou vai focar exclusivamente nos movimentos sociais?

A missão que o presidente Lula me deu foi a de tratar com os movimentos sociais e com as várias organizações do povo brasileiro. Ele me chamou para ser ministro, para dialogar com o povo, e não com a Faria Lima, definitivamente.

Como você avalia a política econômica do governo, liderada pelo ministro Fernando Haddad? Eu pergunto isso porque seu partido, o PSOL vota muitas vezes contra ela.

Vamos lá: hoje foi noticiado que, nesse governo Lula 3, temos a menor taxa de inflação acumulada da série histórica. Nós alcançamos o menor desemprego da série histórica. O Brasil retomou taxas de crescimento acima de 3%. Aumentou a renda do trabalhador, houve aumento real do salário mínimo.

Houve a retomada, em 2023, dos investimentos públicos com PAC, Minha Casa Minha Vida e outros programas sociais.

Ou seja, a política de ajuste fiscal focada no andar de cima, em cobrar de bilionário que não paga imposto, propondo cobrança de imposto de BET apesar de todas as resistências no Congresso Nacional, é a política que eu defendo.

Então o PSOL estava errado quando votou contra as propostas de ajuste do governo?

O PSOL votou particularmente contra o arcabouço fiscal. Não foi uma votação conjunta contra as políticas econômicas do governo do presidente Lula e do ministro [da Fazenda, Fernando] Haddad. E o PSOL definiu por ampla maioria ser base de apoio do governo Lula, vai trabalhar pela reeleição do presidente Lula.

Mas, veja: como deputado, eu expresso as minhas posições individuais e a posição da minha bancada, do meu partido. Como ministro, é meu dever expressar as posições do governo do presidente Lula.

Como será quando o PSOL votar contra o governo?

O União Brasil tem três ministros. E quantas vezes o União Brasil votou contra o governo? Se você analisar a taxa de fidelidade do PSOL ao governo, verá que ela é bastante ampla. Mas eu acredito que a agenda que está colocada [pelo governo] daqui até o ano que vem tende a ter amplo apoio da bancada do PSOL.

O senhor nos disse numa entrevista que a esquerda não poderia ceder tanto em suas convicções a ponto de virar centro pois isso seria um suicídio político. Acha que o governo Lula cedeu muito, e depois recuou e partiu para um confronto com o que chama de bancada BBB, de bets, bancos e bilionários?

O que mudou nos últimos meses no Brasil não foi a atitude do governo. O que mudou foi a situação política do país.

Houve uma ofensiva da maioria do Congresso Nacional na derrubada do decreto do Lula do [aumento do] IOF [Imposto sobre Operações Financeiras], na blindagem dos super ricos e ao travar propostas que interessam para a maioria do povo brasileiro.

Essa maioria se expressou ainda na votação do aumento do número de deputados, na aprovação da PEC da Blindagem, na demora para votar a isenção do imposto de renda.

O governo, e particularmente o Lula, teve uma atitude muito firme, de travar a luta de ideias e a luta política. Em nenhum momento recuou. O presidente disse claramente: “Eu fui eleito para governar para o povo brasileiro. E vou seguir com as medidas que taxam o andar de cima para garantir recursos para o povo, inclusive para que o povo não pague imposto de renda”.

Simultaneamente a isso, nós tivemos um ataque à soberania nacional com as tarifas do [presidente dos EUA, Donald] Trump e pela punição a autoridades brasileiras [que tiveram o visto suspenso].

Como viu o posicionamento do presidente?

O Lula foi firme. Aliás, ele virou capa do [jornal] “New York Times” como o único presidente que enfrentou o Trump. Negociou com o pragmatismo necessário, mas sem ceder um milímetro no tema da soberania nacional.

O governo do Lula tem travado a luta das ideias, a luta política, mais do que qualquer outro governo progressista que nós tivemos.

Mas Lula segue tendo dificuldades e sofrendo derrotas no Congresso, e o diálogo com Trump está apenas no começo. Não há um certo oba-oba por parte do governo, como se tudo já estivesse resolvido e o presidente, já reeleito?

Há uma reconfiguração geopolítica, com EUA e China disputando a liderança econômica e tecnológica do mundo. E isso cria uma instabilidade internacional da qual o Brasil é parte.

Você tem, de um lado, o Brasil, com políticas soberanas. E, de outro lado, uma pressão dos EUA, com um nível de intervenção para que a América Latina sirva e se subordine aos seus interesses econômicos. A gente vê isso nos ataques mais recentes do Trump e nas ameaças à Colômbia e à Venezuela, independentemente de qualquer juízo que as pessoas tenham sobre os governos que estão lá.

Lula reafirmou a nossa soberania, e se dispôs a negociar sobre políticas comerciais e termos de trocas entre Brasil e EUA.

Esse é o papel de um estadista, de um presidente verdadeiramente patriota. É o contrário daqueles que usaram a bandeira e os símbolos nacionais nos últimos anos para fazer politicagem, e na hora do vamos ver, quando o Brasil foi atacado, se esconderam embaixo da saia lá nos EUA para conspirar contra o país.

Aliás, é uma vergonha que o [deputado federal] Eduardo Bolsonaro ainda não tenha sido cassado e siga atuando como traidor da pátria em Miami. É inaceitável.

Mas, de novo: a situação do governo não é confortável. A reeleição não é favas contadas, nada está definitivamente resolvido.

E quando esteve? Nada se ganha de véspera. No cenário polarizado em que a gente vive, o jogo político eleitoral é sempre muito acirrado. O presidente sabe disso e tem falado sobre isso.

Hoje, qual é o cenário? Lula lidera em todas as pesquisas, o governo cresce em aprovação, reforça sua conexão popular e aqueles que tentaram dar golpe de Estado respondem por seus crimes. Agora, o jogo nunca é decidido de antemão, né?

Eu sou corintiano. Mesmo quando o time está em um jogo difícil pra caramba, eu assisto até os 49 minutos e meio, até o juiz dar o apito final. Quantas vezes já não teve gol bem no final? Então ninguém [no governo] acha que o jogo está resolvido.

Depois das eleições, haverá fatalmente uma discussão sobre o pós-Lula, sendo ele vencedor ou não. O presidente chamou o senhor para o ministério e o colocou em campo em novas condições. Na sua cabeça em que posição o senhor vai jogar quando Lula deixar a arena?

Quando eu era criança, almoçava todo domingo na casa da minha avó. E ela repetia: “Cada dia com a sua agonia”. A minha preocupação agora é ajudar a reforçar o governo do presidente Lula, na missão que ele me deu, e contribuir para a reeleição dele em 2026. Será uma grande batalha. Meu foco é 100% nisso. Pós se discute depois.

Mas você tem o desejo de algum dia ser presidente da República?

Qualquer pessoa que esteja na disputa política tem desejos, sonhos e aspirações. Só que esse debate não passa só por desejos, sonhos e aspirações individuais.

O Lula se construiu como a maior liderança política e popular da história desse país, não só pelos sonhos que tinha, mas porque foi uma grande liderança metalúrgica, sindical, fez greves, organizou o movimento social, teve resiliência e persistência na política. Foi atacado como ninguém nesse país, foi preso injustamente.

Então, não é isso [desejo] que define futuro político. O que define são os acontecimentos, a história. É especulação tratar disso [agora].

Há outras pessoas já posicionadas como possíveis sucessores de Lula. Acredita que política tem fila, e há candidatos na sua frente?

Eu não me sinto nem à vontade para fazer esse debate numa circunstância como essa, em que o presidente Lula está bem, fazendo um governo extraordinário.

Lula é candidato à reeleição, e vamos trabalhar para que seja reeleito. O foco tem que estar nisso, e não no que venha a acontecer depois.

O senhor não será mesmo candidato a nada em 2026?

É uma questão de razoabilidade. Lula me convocou para uma missão. Entrar [no governo] agora em outubro e sair em abril [como exige a lei para quem será candidato] não vai proporcionar que o trabalho [no ministério] tenha começo, meio e fim.

É importante dizer que isso não foi uma exigência do Lula, como se noticiou algumas vezes. Ao contrário: o presidente discutiu comigo os cenários eleitorais para o ano que vem. É mais uma questão de coerência com a função e com a missão que o Lula me deu.

Mas então o senhor ficará sem mandato.

Eu milito há 25 anos na luta social, na luta política. E tenho mandato há apenas dois anos e meio.

O senhor gosta de ser deputado? O Lula, quando foi, na década de 1980, não se adaptou.

Na vida, a gente não faz só o que gosta. A vida é dura. Mas, sim, ser deputado me proporcionou o desafio de compreender por dentro como funciona o parlamento.

Foi um exercício para mim, de desenvolver capacidade de diálogo entre posições diferentes. Agora, é evidente: nós temos uma dificuldade no parlamento. O próprio Lula já falou sobre a desqualificação política, sobretudo proporcionada pela extrema-direita, de uma política feita com base em agressão gratuita e em lacração, que diminui o parlamento. E eu vivenciei também isso nessa legislatura.

A direita mais radical entra forte na eleição de 2026, ou sem Jair Bolsonaro ela fica isolada?

Quem tem voto na direita brasileira hoje é o bolsonarismo. Tanto é que todas as tentativas de construir um bolsonarismo light, moderado, como tentaram com o [governador de São Paulo, Tarcísio [de Freitas], não duraram muito tempo. Quando a coisa esquentou nos primeiros debates, ele teve que tirar a fantasia para manter a base social e eleitoral.

Como fica o campo da centro-esquerda em São Paulo em 2026 já que Fernando Haddad diz que não será candidato, Geraldo Alckmin dá sinais de que não será candidato, e o senhor diz que não pretende disputar cargos? Quem concorrerá ao governo e ao Senado?

Nem a direita sabe quem são os nomes deles [para esses cargos]. O Tarcísio é candidato à reeleição em SP ou é candidato a presidente? Se o Tarcísio não for, quem é o candidato da direita?

O xadrez eleitoral em São Paulo está indefinido. Essa definição vai se dar no começo do ano que vem. E aí, com certeza, com a direção do presidente Lula, se buscará construir uma frente, uma unidade, sabendo da importância que São Paulo tem para o Brasil e para o processo eleitoral.

noticia por : UOL

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