Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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Bienal do Livro do Paraná muda sede dias antes do evento e acumula conflitos

Anunciada para acontecer de 10 a 19 de outubro em Curitiba, a 1ª Bienal do Livro do Paraná comunicou uma mudança de sede nesta sexta-feira (19) e vem acumulando problemas desde o ano passado, quando começou a ser concebida.

Até a noite de quinta-feira (18), a bienal seguia anunciado que a feira ocorreria no Viasoft Experience, um espaço com mais de 10 mil metros quadrados de área que fica dentro do campus da Universidade Positivo. No final da manhã desta sexta, a bienal anunciou a mudança de endereço para o Jockey Club do Paraná.

A empresa responsável pelo aluguel do Viasoft informou à Folha, na quarta-feira (17), que rescindiu o contrato de cessão de espaço com a Cocar Produções Editoriais, empresa responsável pela organização da bienal, no dia 10 de setembro. O rompimento ocorreu por falta de pagamento da Cocar, administrada por Lis Alves, coordenadora-geral da bienal.

“Houve um atraso na nossa Lei Rouanet, saiu só em maio, e parte dos depósitos entram só final de setembro e parte em dezembro. E o Viasoft não quis negociar [as datas dos pagamentos]”, diz Alves.

Dos mais de R$ 8 milhões de recursos que a bienal foi autorizada a captar via Lei Rouanet, até o início desta semana, ainda não constava no site do Pronac, o Programa Nacional de Apoio à Cultura, nenhum valor arrecadado.

“Tivemos muita dificuldade na captação. O projeto foi liberado em maio e as grandes empresas interessadas em patrocinar a bienal fazem esta liberação no primeiro semestre. Então, quando saiu nossa autorização para captar, os empresários já tinham destinado todo o valor anual deles para outros projetos”, afirma.

Segundo Lis, o evento está sendo realizado agora com recursos próprios, de pequenos apoiadores, de venda de ingressos e de expositores.

“Já temos 51 estandes vendidos para editores e conseguimos realocar para um espaço que consideramos melhor, em questão de infraestrutura, de localização, e um astral melhor também, um espaço bonito, do patrimônio histórico da cidade. Estamos felizes com a mudança, embora isso nos cause muito trabalho, para reorganizar tudo”, diz.

A falta de dinheiro para pagar o aluguel do Viasoft vem na esteira de outros problemas já enfrentados pela Cocar, que inicialmente divulgou esperar um público de 200 mil pessoas durante dez dias para, nas palavras deles, realizar o maior evento literário do Sul do país, nos moldes que já acontecem em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A empresa de Lis acumula polêmicas desde o final do ano passado. A produtora cultural Camille Bittencourt chegou a trabalhar nesta fase, em setembro de 2024, mas depois optou por sair, sem receber pagamento, alegando desgastes na relação de trabalho com Lis.

Cerca de três meses após sua saída, Bittencourt ainda soube que o projeto da bienal tinha sido apresentado por Lis e aprovado pelo Ministério da Cultura com o nome dela, mas sem sua anuência.

“Meu nome era o único na ficha técnica do projeto e eu já tinha saído”, diz Bittencourt. Em fevereiro, houve a alteração formal, junto ao MinC. “Não tenho nenhum contato com ela desde o meu desligamento. E as pessoas que eu indiquei também foram saindo do projeto. Acho que ela já está com a terceira equipe.”

Lis justifica que, quando apresentou o projeto, Bittencourt ainda fazia parte da equipe e que a alteração não pode ser feita imediatamente, em função das etapas que precisam ser obedecidas junto ao MinC.

Outras pessoas também não foram devidamente remuneradas pelos serviços prestados. A Conceito Agência de Notícias e Portais, contratada pela Cocar no início da organização da bienal, registrou em novembro do ano passado uma dívida de mais de R$ 15 mil em cartório. A empresa enviou uma notificação extrajudicial a Lis, mas diz ainda não ter recebido o pagamento.

Já a escritora brasiliense Lella Malta tenta recuperar judicialmente parte do dinheiro gasto na contratação de um estande para a bienal. Ela alega no processo que Lis mudou repentinamente a data do evento, o que a impediu de participar, e que considera desproporcional que a bienal não devolva nenhuma parcela do dinheiro.

No processo, Malta também questiona o fato de os pagamentos pelo estande terem sido feitos para uma conta bancária que está no nome da mãe de Lis, o que evidenciaria uma suposta confusão patrimonial e possível tentativa de blindagem patrimonial.

“É uma conta conjunta, minha e da minha mãe. E minha mãe estava ajudando com os recursos, tinha feito alguns adiantamentos para nos ajudar”, justificou Lis.

Em outro processo judicial, movido pela A Página Distribuidora de Livros, em 2021, a Cocar reconhece uma dívida de cerca de R$ 100 mil, com bloqueio de bens já determinado, mas ainda sem desfecho. Segundo Lis, há um acordo para que a distribuidora de livros ocupe um espaço na própria bienal, no modelo de permuta, o que encerraria a antiga pendência financeira.

“Não é novidade para ninguém no mercado que a Cocar teve problemas na pandemia, assim como outras tantas empresas. Depois tive problema de saúde e só agora estamos retomando. Estamos negociando e regularizando tudo”, afirmou ela.

Outros problemas foram relatados por quem acompanhou as publicações da bienal nas redes sociais, como sucessivos atrasos na divulgação dos nomes dos autores e dos selos editoriais que participariam do evento. A venda de ingressos começou em meados de junho, antes do anúncio da programação integral do evento. “As próprias pessoas, especialmente de fora, cobravam a abertura das vendas para garantir seus ingressos”, justificou Lis.

O público também ficou em dúvida sobre nomes que constavam na programação. O professor e escritor curitibano Caetano Galindo, por exemplo, precisou publicar uma nota em sua rede social para explicar que o “Prof. Dr. Galindo” anunciado na programação do evento não era ele.

Até esta quinta-feira (18), o site da bienal informava que o “Prof. Dr. Galindo” participaria no dia 14 de outubro da mesa cujo tema era “Oralidades afroparanaenses: memórias, livros e produção intelectual”.

“Muita gente tem me perguntado sobre a Bienal do Livro do Paraná. O convidado identificado apenas como ‘Prof. Dr. Galindo’ não sou eu. Nunca fui convidado para a bienal, não faço parte da programação e, na verdade, sequer estarei no Brasil nas datas do evento”, escreveu ele, há três semanas.

Questionada, Lis afirmou que de fato não é o Caetano Galindo, e que o convite, na verdade, foi feito “ao diretor do jornal Plural, que também é Galindo”. Procurado pela Folha, o jornalista Rogério Galindo, que é diretor de redação do veículo, e irmão de Caetano, disse que não recebeu convite da bienal.

noticia por : UOL

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