Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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Arroz domina debate político e econômico do Japão, enquanto país define novo líder

Nobuo Kubo herdou sua fazenda de arroz há quatro décadas, tornando-se a terceira geração de sua família a cuidar dos campos na base do Monte Daisetsu. O derretimento da neve fez desta região em Hokkaido uma das principais produtoras de arroz do Japão.

Mas Kubo, agora com 72 anos, não tem intenção de passar a fazenda para seus filhos. Ele integra uma geração de agricultores idosos frustrados com políticas governamentais que tornam a agricultura cada vez mais insustentável.

“É desleixado”, disse Kubo. “O governo só toma medidas provisórias, nada a longo prazo.”

A frustração cresceu no último ano, quando os preços do arroz dobraram e o governo administrou mal o fornecimento regulamentado. A crise foi decisiva para a derrota do Partido Liberal Democrático em julho e a renúncia do primeiro-ministro Shigeru Ishiba. O arroz também foi ponto de atrito nas negociações com os EUA, que pressionavam por mais exportações.

O PLD elegerá um novo líder neste sábado (4) —essa pessoa deve se tornar o novo primeiro-ministro do Japão— e o alto custo de vida é uma questão prioritária. O aumento do preço do arroz alterou a vida cotidiana, mudou dietas e levou restaurantes a punir clientes que não terminam o prato.

Um dos favoritos é o Ministro da Agricultura Shinjiro Koizumi, cujo antecessor renunciou depois de dizer que “nunca precisou comprar arroz” porque o recebia de presente —um comentário considerado insensível por japoneses.

O envolvimento do governo na regulação do mercado de arroz do Japão é totalmente único em comparação com os Estados Unidos. Os governos central e locais gerenciam de perto o grão com a ajuda de cooperativas agrícolas, que fornecem desde fertilizantes até empréstimos que ajudam os pequenos agricultores, que constituem a maioria do setor, a sobreviver. Os reguladores estabelecem diretrizes de produção que influenciam os preços do arroz, e as cooperativas ajudam a implementar as políticas governamentais.

Koizumi e outros políticos prometem rever a regulação. Mas os críticos duvidam, já que cooperativas resistiram a reformas anteriores e têm grande influência no PLD.

O arroz é central na culinária japonesa, mas seu consumo cai desde os anos 1960, enquanto pão e massa ganham espaço. Para evitar excesso, o governo reduziu metas e subsidiou outras culturas.

Esta política visava evitar o excesso de oferta e oscilações dramáticas de preços, dizem os especialistas.

No ano passado, uma tempestade perfeita de eventos causou caos no mercado: houve uma colheita de baixa qualidade, um influxo de turistas e compras de pânico em meio a temores de que um terremoto massivo atingiria o Japão.

O arroz desapareceu das prateleiras dos supermercados, e o que restou custava o dobro. O governo então teve que recorrer às suas reservas de emergência.

Isso gerou irritação para agricultores como Kubo, que dizem que poderiam ter produzido mais arroz se não fossem os erros de cálculo do governo. Kubo deixou 30% de suas terras agrícolas sem uso devido às diretrizes de produção.

Durante a visita de Koizumi a Hokkaido em maio, Kubo e outros dois agricultores imploraram por uma mudança.

“Eu disse a ele: ‘Venha ao campo. Faça políticas enquanto realmente observa a situação no terreno. Caso contrário, você não entenderá a realidade'”, disse Kubo. “Ele disse que entendeu, mas não veio de jeito nenhum”.

Ainda assim, Koizumi parece ter entendido a mensagem. Em agosto, o governo anunciou uma grande mudança política: deixará de limitar a produção de arroz e incentivará colheitas maiores. O governo vinha prevendo a demanda anual, o que atuava como um teto de fato para a produção. Para evitar um excedente, alocará mais arroz para exportações.

Koizumi recusou um pedido de entrevista.

ANSIEDADE SOBRE O FUTURO DAS FAZENDAS FAMILIARES

Os planos do governo para incentivar os agricultores a produzir mais permanecem vagos, e essa incerteza deixou muitos agricultores ansiosos.

O setor já enfrenta desafios: os agricultores estão envelhecendo, enquanto as gerações mais jovens buscam empregos nas cidades, deixando mais de 1 milhão de acres sem uso.

Alguns, como Hiroaki Kawazoe, 39, seguem no campo. Herdou a fazenda da família, usa drones, vende direto para restaurantes e aposta em marketing digital.

“Achei que seria um desperdício deixar todo o trabalho árduo dos meus pais desaparecer”, disse Kawazoe.

Ainda assim, a família se pergunta o que o futuro reserva para seu setor, desde negociações tarifárias até novas políticas governamentais.

“Quem sabe o que acontecerá daqui para frente?”, disse sua mãe, Katsuko Kawazoe, 71. “Estamos ansiosos para saber se conseguiremos administrar.”

Sob o acordo comercial, Tóquio concordou em aceitar mais arroz livre de tarifas dos Estados Unidos, e no início deste ano, os varejistas tomaram a medida incomum de recorrer a importações da Califórnia e da Coreia do Sul como alternativas mais baratas ao arroz cultivado localmente.

Os compradores, que preferem o arroz local, dizem que estão desesperados por uma solução governamental que torne o grão mais acessível e proteja os agricultores.

“Com o número de produtores de arroz diminuindo, espero que algum tipo de medida seja tomada, embora eu não saiba qual”, disse Kozue Niiya, 47, fazendo compras numa tarde recente. “Mas eu realmente gostaria que itens alimentares diários, como o arroz, fossem mais baratos”.

A POLÍTICA DO VOTO AGRÍCOLA

Os esforços anteriores do PLD para reformar o setor do arroz perderam força em grande parte devido à resistência da Cooperativa Agrícola Japonesa (JA), poderosa federação de associações locais que representa agricultores e possui forte influência política. Além do lobby, a JA mobiliza o voto rural, que tem peso desproporcional no sistema eleitoral japonês.

O Ministério da Agricultura insiste que suas políticas não buscam favorecer grupos específicos. Ainda assim, a JA evita entrevistas e, em coletivas, pressiona por políticas que garantam o futuro da agricultura.

Graças à sua capilaridade em todas as prefeituras, a JA ajudou a sustentar o domínio do PLD por quase sete décadas, explica a professora Patricia Maclachlan, da Universidade do Texas. Segundo ela, o pacto era claro: a JA entregava votos rurais, e o PLD protegia os agricultores.

Uma dessas proteções foi o limite de produção, que manteve os preços do arroz artificialmente altos. Isso beneficiou principalmente agricultores, que administram pequenos lotes e dependem do arroz como complemento de renda.

O tamanho reduzido dessas propriedades remonta ao pós-guerra, quando trabalhadores da indústria mantinham pequenas áreas de cultivo para alimentar suas famílias. Ainda hoje, muitos campos produzem apenas para consumo próprio, mas continuam viáveis graças ao suporte da JA.

O agricultor em tempo parcial Shinichi Matsumoto, 76, teme que, se a produção crescer demais e os preços caírem, aqueles iguais a ela abandonem o setor. Para Matsumoto, a chave será equilibrar o sustento das pequenas e grandes fazendas com a necessidade de consumidores.

“O arroz é um alimento básico”, disse Matsumoto. “A comida é a fonte da vida. Existe algo mais importante que isso?”

noticia por : UOL

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