Há quase três anos, a Escócia registrou um encalhe em massa de 55 baleias-piloto (Globicephala), uma espécie grande de golfinhos, na Ilha de Lewis. O evento ocorrido em julho de 2023 causou a morte de todos os animais, e o que aconteceu antes e durante esse episódio continua sendo investigado até os dias atuais.
Em um novo estudo, pesquisadores reconstruíram o histórico alimentar dos animais antes do encalhe. O resultado? Há uma hipótese entre os especialistas de que os habitats onde as baleias-piloto se nutrem estão ficando cada vez mais rasos devido às mudanças climáticas e, consequentemente, o risco de elas encalharem aumenta, como ocorreu na Ilha de Lewis.
A descoberta foi liderada pela Scottish Marine Animal Stranding Scheme (Smass, na sigla em inglês), um órgão de pesquisa marinha financiado pelo governo escocês e sediado na Universidade de Glasgow. Os resultados foram publicados na revista PLOS One em 29 de abril.
“Nossos resultados demonstram a importância das fontes de alimento em águas profundas para as baleias-piloto-de-aleta-longa”, afirma a autora principal do estudo, Anna Kebke, da Universidade de Glasgow.
Análise de isótopos estáveis dos golfinhos
Por viverem em águas profundas, há uma dificuldade em obter dados sobre habitat, comportamento alimentar e deslocamentos das baleias-piloto. Com o encalhe, foi possível investigar as assinaturas químicas preservadas no tecido cutâneo dos animais. Ao analisar isótopos, os cientistas conseguiram as informações.
Segundo os resultados, as baleias-piloto buscavam por alimentos ao longo da borda e da encosta da plataforma continental, uma região de águas oceânicas mais profundas – essa é a primeira evidência de que esse tipo de animal usa habitats plataforma e talude como fonte alimentar importante durante determinados períodos do ano.
Por outro lado, cada vez mais, as regiões onde os alimentos são encontrados têm ficado mais rasas, tornando o risco de encalhe maior. “Compreender os hábitos alimentares de grandes predadores marinhos, como as baleias-piloto-de-aleta-longa, é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de conservação”, conclui Anna.
Governo escocês também investigou o motivo dos golfinhos encalhados
No início do ano, um relatório produzido pelo governo escocês, também por meio da Smass, apontou que as causas da tragédia tiveram ligações com fatores biológicos, sociais e ambientais.
O documento também concluiu que por serem animais sociáveis e viverem em grupos, uma das principais motivações para o encalhe foi o parto complicado de uma fêmea. Os membros do bando a protegeram para não deixar a companheira vulnerável a predadores. Como ela estava nadando para a costa, os golfinhos foram atrás dela e, na hora de voltar, as águas estavam rasas demais, provocando o encalhamento em massa.
A análise mostrou que os animais estavam saudáveis, descartando a possibilidade de terem encalhado pela disseminação de alguma condição grave entre o grupo. O processo começou quando o bando passou a acompanhar uma fêmea em sofrimento para parir.












