Em meio às tensões protagonizadas pelos Estados Unidos, Irã e Israel no final de semana, aumentam os rumores de uma possível Terceira Guerra Mundial. Algumas correntes geopolíticas defendem que um conflito de tal magnitude pode estar próximo de ocorrer, a depender dos próximos passos tomados pelas nações envolvidas.
Caso se confirme o início de uma disputa armada global, para os especialistas entrevistados pelo Metrópoles, o cenário em relação ao combate às mudanças climáticas seria desastroso e o aquecimento global teria grandes chances de evoluir com ainda mais rapidez.
“No curto prazo, haveria aumento imediato das emissões, devido a incêndios, destruição e maior uso de combustíveis fósseis. No longo prazo, a destruição de infraestruturas essenciais dificultaria a implementação de políticas fundamentais, como a transição energética. Isso comprometeria ainda mais a capacidade global de enfrentar as mudanças climáticas”, exemplifica o cientista Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
A indústria militar é uma das mais dependentes de combustíveis fósseis, tanto para o desenvolvimento de armas quanto para o transporte de veículos, como navios de guerra, tanques e jatos de caça. Em meio a um conflito, o uso seria ainda maior e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa aumentariam.
Além da produção maior de gases, uma guerra poderia destruir ecossistemas importantes, o que impactaria diretamente a absorção de carbono da Terra e devastaria solos e nascentes pelo mundo. Haveria a possibilidade de um inverno nuclear, em que a fuligem dos incêndios sobe para a estratosfera e bloqueia a luz solar.
“O ‘custo oculto’ também vem depois. Reerguer cidades inteiras exige uma quantidade colossal de cimento, aço e principalmente energia — indústrias que estão entre as mais poluentes do mundo”, alerta o professor de geografia e geopolítica Flávio Bueno, do Colégio Sigma, em Brasília.
Guerras poderiam enfraquecer acordos climáticos
Artaxo aponta que a geopolítica é a responsável por nortear decisões econômicas e sociais, incluindo as que influenciam possíveis acordos climáticos firmados. Quando há conflitos, a implementação das agendas se torna mais difícil.
“Conflitos desviam prioridades e enfraquecem a cooperação internacional necessária para avançar nesse tema”, diz o especialista, que também é coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.
Para dar certo, os acordos precisam de uma unidade global. Em um cenário de guerra, ocorre justamente o contrário: o mundo se divide e não há união. Além disso, a verba que poderia ser direcionada ao combate das mudanças climáticas é desviado para orçamento de defesa, que é a prioridade total do momento.
Como transformaria o mundo em um ambiente imprevisível, até países que costumam cumprir os acordos climáticos poderiam “voltar atrás” e utilizar fontes energéticas poluentes para manter a segurança nacional.
“A diplomacia climática exige transparência, e a guerra vive de segredos. O caminho em conflitos é justamente no sentido oposto: a ampliação drástica do consumo de combustíveis fósseis”, explica Bueno.
Questão climática também tem relação com a segurança nacional
Mesmo que não ocorra uma nova guerra por agora, os especialistas alertam que cuidar do clima é essencial para evitar conflitos no futuro. Se as mudanças climáticas avançarem ainda mais, poderemos ver novas disputas por recursos naturais.
“No caso dos Estados Unidos, por exemplo, várias bases navais na Virgínia e na costa oeste estão sendo reforçadas para lidar com o aumento do nível do mar. No caso do Brasil, que tem uma economia fortemente baseada em commodities agrícolas, a redução da precipitação provocada pelas mudanças climáticas pode gerar dificuldades econômicas significativas”, exemplifica Artaxo.
A qualquer alteração significativa no clima, fica cada vez mais trabalhoso se adaptar para alcançar os mesmos resultados em uma colheita, por exemplo. Segundo Bueno, em um cenário hipotético, as mudanças poderiam causar um deserto de recursos e, como consequência, criar novas zonas de conflitos. Por isso, é essencial acelerar os compromissos climáticos.











