Você já ouviu falar em tempestade do tipo supercélula? O fenômeno meteorológico é caracterizado pela presença de uma corrente de ar ascendente, rotativa e persistente, chamada de mesociclone. Essa rotação faz com que o sistema seja mais organizado e duradouro do que uma tempestade comum, podendo provocar chuva intensa, granizo, rajadas de vento fortes e até tornados.
Segundo a engenheira ambiental Celina Rodrigues, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) apoiada pelo Instituto Serrapilheira, o principal diferencial está na estrutura interna da tempestade.
“As supercélulas se diferenciam das tempestades comuns pela organização interna persistente. Elas podem durar até seis horas, percorrer centenas de quilômetros e produzir granizo de grandes dimensões, ventos destrutivos e até tornados”, explica.
Como se forma uma supercélula?
Para que esse tipo de tempestade se desenvolva, é necessário que várias condições atmosféricas aconteçam ao mesmo tempo. Entre elas estão a presença de umidade no ar, instabilidade atmosférica e algum mecanismo que faça o ar subir, como a passagem de uma frente fria ou o aquecimento do solo.
Outro fator essencial é o chamado cisalhamento do vento, quando correntes de ar sopram em direções ou velocidades diferentes em várias alturas da atmosfera.
Celina explica que esse processo cria uma espécie de rotação inicial no ar. “O cisalhamento forma um ‘tubo’ invisível de ar girando paralelamente ao solo. Quando a corrente de ar ascendente empurra esse tubo para cima, o giro horizontal se transforma em rotação vertical, formando o mesociclone, que é o núcleo da supercélula”, detalha.
A intensidade do fenômeno pode variar conforme a disponibilidade de umidade e o nível de aquecimento da atmosfera na região.
Por que essas tempestades provocam tanta chuva?
Outra característica marcante das supercélulas é a capacidade de concentrar grandes volumes de chuva em pouco tempo.
O meteorologista Tércio Ambrizzi explica que esse tipo de tempestade funciona como um sistema extremamente eficiente na formação de precipitação.
“A corrente ascendente é intensa e persistente, transporta grande quantidade de umidade e pode ficar quase parada sobre uma região. Isso faz com que muita chuva caia em pouco tempo, aumentando o risco de alagamentos e deslizamentos”, explica o professor do departamento de Ciências Atmosféricas da USP e membro da Acadêmia Brasileira de Ciências.
Além da chuva intensa, supercélulas também podem produzir grandes granizos, gerar descargas elétricas, ventos muito fortes e enchentes.
Onde o fenômeno ocorre com mais frequência
As supercélulas são mais comuns nas grandes planícies da América do Norte, especialmente na região central dos Estados Unidos e no sul do Canadá, áreas conhecidas pela frequência de tornados.
Mas esse tipo de tempestade também ocorre em outras partes do mundo. Há registros na Argentina, no Uruguai, na Índia, na África do Sul, no leste da Austrália, na China e em algumas regiões da Europa.
No Brasil, os episódios são menos frequentes, mas também acontecem, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.
“A região oeste do Paraná é particularmente propensa por causa da atuação de correntes de vento que transportam calor e umidade da Amazônia. O Sul do Brasil faz parte do chamado corredor de tornados da América do Sul, a segunda região do mundo em frequência de tempestades severas”, explica Celina.
Supercélulas e mudanças climáticas
Embora seja difícil associar um evento específico ao aquecimento global, pesquisadores observam alterações nas condições atmosféricas que favorecem tempestades mais intensas. De acordo com Celina, estudos recentes indicam aumento da energia disponível na atmosfera, o que pode favorecer tempestades mais fortes.
“Mesmo que não seja possível afirmar que haverá mais supercélulas, ambientes com mais calor e umidade tendem a favorecer tempestades mais intensas”, diz.
Para Tércio, já há evidências claras de que o aquecimento global está intensificando eventos extremos de chuva.
“O aumento da temperatura do planeta eleva a quantidade de vapor d’água na atmosfera. Isso intensifica chuvas extremas. Mas ainda precisamos de mais estudos para afirmar se há aumento específico de supercélulas”, conclui o pesquisador.












