Depois que o caminhão de coleta passa pelas ruas, o lixo vai para caminhos diferentes, dependendo da estrutura de cada cidade. Em muitos casos, o processo de coleta é feito por etapas como: transporte, triagem e disposição final. Em outros, o processo é mais direto, com o material seguindo quase integralmente para o descarte, sem a separação prévia.
Nas grandes cidades brasileiras, a gestão dos resíduos sólidos se tornou um dos principais desafios do planejamento urbano e da administração pública. Estudos indicam que o país produz cerca de 160 mil toneladas de lixo por dia. Só a cidade de São Paulo responde por 12 mil toneladas diárias, o maior volume entre os municípios brasileiros.
Do total gerado no país, aproximadamente 30% poderiam ser reaproveitados ou reciclados, mas só uma parcela pequena volta de fato para a cadeia produtiva. Os plásticos representam 13,5% de todo o lixo produzido ao longo do ano, o equivalente a mais de 10 milhões de toneladas.
Para onde vai o lixo depois da coleta?
De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o caminho do lixo envolve etapas que deveriam ser cumpridas desde o momento em que o resíduo é gerado até o seu destino final. De forma simples, o modelo ideal de percurso inclui:
- Geração: quando o resíduo é produzido em casas, comércios e serviços;
- Coleta (convencional e seletiva): retirada do lixo pelas equipes de limpeza urbana, com ou sem separação de recicláveis;
- Tratamento: processos que permitem reaproveitar parte do material, como reciclagem e compostagem;
- Destinação: encaminhamento para unidades adequadas, como centrais de triagem ou usinas;
- Disposição final: envio que não pode ser reaproveitado para aterros sanitários.
Entretanto, na prática, a maior parte dos resíduos coletados no Brasil vai direto para aterros sanitários ou áreas de descarte. Materiais que poderiam ser reciclados ou tratados se misturam com o lixo comum, já que nem todo mundo faz a separação nas casas e a coleta seletiva não cobre todos os bairros.
Com isso, os aterros acabam recebendo muito mais do que só os rejeitos. Recicláveis e restos de alimentos chegam juntos e parte desse lixo ainda vai para áreas sem controle ambiental, onde não existe proteção do solo nem monitoramento da água subterrânea.
“De maneira geral, os aterros sanitários recebem principalmente resíduos domiciliares e comerciais compostos por rejeitos e materiais recicláveis e orgânicos. Já os lixões, que não possuem qualquer controle ambiental, recebem os mesmos tipos de resíduos, além de entulho e até mesmo resíduos perigosos”, explica o engenheiro ambiental Pedro Montenegro, do Rio de Janeiro.
Impactos ambientais da destinação errada do lixo
Em casos de descarte de resíduos em locais sem estrutura, como os lixões, o contato direto do lixo com o solo favorece a liberação de líquidos contaminantes, que podem infiltrar e atingir a água subterrânea ou cursos d’água próximos.
Além disso, a decomposição de restos de alimentos e outros resíduos orgânicos libera gases de forma descontrolada, o que contribui para o aquecimento do planeta que já está com níveis altíssimos de emissão de CO2.
Outro ponto preocupante é que áreas de descarte sem controle motivam a presença de animais que transmitem doenças, como insetos e roedores, o que amplia a ocorrência de problemas de saúde entre pessoas que vivem ou circulam perto desses locais.
Por que a gestão do lixo ainda é um desafio no Brasil
A gestão do lixo enfrenta dificuldades principalmente por falta de estrutura e de organização em muitas cidades. A coleta seletiva não chega a todos os bairros, há poucas unidades de reciclagem e de compostagem e o planejamento municipal para o setor é limitado.
Isso faz com que o serviço fique concentrado em recolher e descartar os resíduos, e não em cumprir de forma integral todas as etapas do processo. Além disso, mesmo que a legislação preveja responsabilidades para governo, empresas e população, essas ações ainda são pouco aplicadas no dia a dia.
“A política mais decisiva é a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece responsabilidade compartilhada entre governo, empresas e sociedade. Sem planejamento municipal, cobrança adequada pelo serviço e educação ambiental, o volume de lixo nos aterros não vai diminuir”, ressalta a engenheira e gestora ambiental Kelly Cristina da Silva, de Ribeiro Preto.
Nesse contexto, medidas como ampliar a coleta seletiva, investir em infraestrutura e incentivar a separação do lixo nas casas são medidas centrais para reduzir o volume de todas as toneladas de resíduos enviados aos aterros.












