Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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Inteligência artificial também pode conservar a natureza. Entenda como


A inteligência artificial já está começando a mudar a forma como a natureza é monitorada e protegida no Brasil e no mundo. Sensores de baixo consumo energético, sistemas de aprendizado de máquina e análise de grandes volumes de dados permitem detectar desmatamento, degradação ambiental e mudanças nos ecossistemas em tempo quase real.

Esse avanço é apontado como uma das principais tendências do Global Horizon Scan 2026, relatório internacional que analisa sinais emergentes capazes de impactar a conservação da biodiversidade.

Produzido pelo Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC/ sigla em inglês), o documento reúne sinais de transformação ainda em estágio inicial, mas que podem influenciar políticas públicas, decisões científicas e estratégias de proteção ambiental.

Entre os destaques estão tecnologias digitais de baixo consumo energético, capazes de monitorar ecossistemas em tempo real, inclusive em regiões remotas.

Segundo o relatório, a combinação entre inteligência artificial, sensores inteligentes e análise de grandes volumes de dados pode fortalecer a base de evidências para decisões de conservação — ao mesmo tempo em que levanta debates sobre acesso à tecnologia, governança de dados e equidade.

Sensores inteligentes e monitoramento em tempo real

Um dos pontos centrais do Global Horizon Scan 2026 é o avanço do Tiny Machine Learning (TinyML). Trata-se de um sistema que recolhe e analisa dados, aprendendo com as informações. Ela fica instalada em dispositivos pequenos, robustos e de baixo consumo energético, que podem operar sem conexão constante com a internet.

Para o coordenador de sustentabilidade da COP-30 e mestre em Desenvolvimento Sustentável Francisco Nilson Moreira, esse tipo de tecnologia já é compatível com a realidade brasileira.

Segundo ele, para funcionar em biomas como Amazônia, Cerrado ou semiárido, os equipamentos precisam ser baratos e resistentes às condições ambientais. “Essas tecnologias precisam aguentar sol, chuva e outras intempéries, e isso já é possível hoje”, afirma. Na avaliação do especialista, os biomas que mais se beneficiariam inicialmente são aqueles sob maior pressão.

“Áreas de fronteira agrícola, onde há supressão de vegetação, mineração e retirada ilegal de madeira, são aplicações imediatas. Monitorar esses territórios ajuda a entender o impacto dessas atividades e até antecipar ações ilegais”, explica.

Por que dados em grande escala fazem diferença

O relatório destaca que a coleta de dados ambientais em larga escala, combinada com inteligência artificial, permite identificar padrões que seriam difíceis de perceber apenas com observação humana ou análises tradicionais.

Para Francisco Nilson Moreira, tratar de questões ambientais é lidar com sistemas complexos. “A natureza envolve um conjunto enorme de variáveis que interagem entre si. A ciência tradicional tenta isolar essas variáveis, mas isso tem limites quando se trata de sistemas complexos”, afirma.

Nesse contexto, a inteligência artificial ajuda a analisar múltiplos fatores simultaneamente. “Com machine learning e dados de larga escala, a gente consegue compreender melhor essa complexidade e tomar decisões mais assertivas”, diz.

Segundo ele, isso pode tornar a atuação de gestores públicos mais eficiente, ao identificar quais fatores realmente controlam os fenômenos ambientais mais críticos. Apesar do potencial, o uso dessas tecnologias também levanta preocupações. Para Moreira, o principal risco está na governança dos dados.

Imagem do alto mostrando a amazônia. Metrópoles
Tecnologias de IA ajudam a detectar desmatamento e mudanças ambientais em áreas remotas

“Quem é dono das informações geradas sobre um bioma brasileiro? Se uma empresa estrangeira coleta dados sobre o Cerrado, eles pertencem a quem?”, questiona. O especialista alerta para o risco de concentração de poder tecnológico e decisório, criando desigualdades no acesso à informação ambiental.

Outro ponto destacado é o aumento do lixo eletrônico. O uso em larga escala de sensores pode gerar resíduos, exigindo a aplicação efetiva das leis de logística reversa já existentes no Brasil.

Ética, transparência e comunidades locais

O diretor técnico de biodiversidade do Fundo Mundial para a Natureza (WWF Brasil), Marcelo Oliveira, reforça que o avanço da inteligência artificial na conservação precisa vir acompanhado de salvaguardas éticas.

Segundo ele, mesmo tecnologias anteriores à IA, como armadilhas fotográficas, já levantavam dilemas ao registrar imagens de pessoas em territórios tradicionais. “A inteligência artificial não pode substituir transparência, controle científico e participação social”, afirma.

Marcelo também alerta para o risco de transformar tecnologia em ferramenta de vigilância sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. “Essas soluções devem fortalecer direitos e proteção ambiental, nunca ampliar desigualdades ou ameaçar modos de vida”, diz.

Apesar dos desafios, os especialistas concordam que a inteligência artificial já contribui para antecipar ameaças à biodiversidade. Sistemas baseados em IA conseguem identificar tendências de desmatamento, degradação ambiental e eventos extremos com maior antecedência.

Segundo Oliveira, essas ferramentas ampliam a capacidade de agir antes que os danos se tornem irreversíveis. “Modelos ajudam a detectar padrões invisíveis aos olhos humanos, mas precisam sempre de validação em campo e interpretação humana”, ressalta.

O Global Horizon Scan 2026 deixa claro que a inteligência artificial não é uma solução isolada para os desafios da conservação. Seu uso precisa estar integrado a políticas públicas, conhecimento científico, saberes tradicionais e decisões coletivas.

Quando bem aplicada, a tecnologia pode ampliar a capacidade de compreender a complexidade da natureza e agir com mais rapidez. Mas seu sucesso depende de governança, transparência e inclusão — para que os benefícios da inovação cheguem a quem vive e protege os territórios na prática.



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