MUNDO

Cérebro de jovem virou espécie de vidro orgânico durante erupção do vulcão Vesúvio

Condições especialíssimas de altíssimo calor e resfriamento rápido foram responsáveis por transformar o cérebro de um jovem romano numa espécie de vidro orgânico durante a famosa erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. Trata-se de um caso único no mundo, dizem os especialistas da Itália e da Alemanha responsáveis pela análise, publicada na última quinta-feira (27).

O rapaz cujo cérebro foi vitrificado, com idade estimada em torno dos 20 anos quando morreu, estava deitado numa cama em um templo dedicado ao imperador Augusto, que ficava na antiga cidade de Herculano (a 12 km da atual Nápoles). Acredita-se que ele fosse o zelador do local.

Embora bem menos famosa que Pompeia, localidade igualmente sepultada pela erupção do Vesúvio, Herculano também foi preservada pelo desastre vulcânico, trazendo grande riqueza de informações sobre o cotidiano do Império Romano. Mas, em meio aos afrescos com cenas mitológicas e papiros com livros antigos, nada surpreendeu mais os arqueólogos do que a presença de uma massa escura, petrificada e brilhante dentro do crânio do jovem.

Visualmente, o material tem semelhanças claras com a obsidiana (ou vidro vulcânico). Mas uma série de análises, inclusive com a ajuda de microscópios, revelaram a presença de moléculas orgânicas, como ácidos graxos e triglicérides, e até resquícios de neurônios. A única conclusão possível é que aquilo tinha sido parte do cérebro e da medula espinhal da vítima.

Acontece que, em tese, isso não deveria ser possível. Conforme explica a equipe liderada pelo vulcanólogo Guido Giordano, da Universidade de Roma 3, a composição rica em água do organismo dos seres vivos não deveria ser capaz de dar origem a um vidro orgânico. Em geral, a vitrificação desse tipo de material só ocorre por meio de um resfriamento muito rápido usando nitrogênio líquido, por exemplo. E, claro, se a temperatura sobe, a vitrificação desaparece.

Em artigo na revista especializada Scientific Reports, Giordano e seus colegas realizaram uma série de experimentos com amostras do vidro orgânico.

“Nas análises experimentais, fizemos com que os fragmentos de cérebro voltassem às temperaturas nas quais se transformaram em vidro, com ciclos de aquecimento e resfriamento em velocidades variáveis, controlados por aparelhos sofisticados”, resumiu Danilo di Genova, coautor do estudo que trabalha no Instituto de Ciência, Tecnologia e Sustentabilidade para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos.

Com os experimentos, os pesquisadores concluíram que provavelmente a chave para a produção do cérebro vitrificado foi a fase inicial dos efeitos do Vesúvio sobre Herculano.

Acontece que, antes de a cidade ser sepultada por uma chuva de pedras vulcânicas, tudo indica que ela foi afetada pelo deslocamento de nuvens de cinzas finíssimas e muito quentes, com temperatura superior a 510 graus Celsius. Tais nuvens provavelmente se dispersaram em minutos, deixando apenas uma camada de cinzas no chão, mas teriam sido suficientes para liquefazer o cérebro do jovem zelador, matando-o instantaneamente.

Essa primeira parte do processo é muito similar ao derretimento da matéria-prima na fabricação do vidro. Acontece que, com a dispersão da nuvem de cinza, o cérebro liquefeito teria passado por um resfriamento relativamente rápido, suficiente para que o vidro orgânico se formasse. Isso também espelha o que costuma ocorrer quando se produz vidro intencionalmente para uso humano.

Segundo Giordano, foi só mais tarde, durante a noite, que Herculano (incluindo o cadáver do zelador do templo) acabou sendo coberta por um depósito de fluxos piroclásticos, ou seja, com dejetos vulcânicos de maior monta.

“O cenário que traçamos é de enorme importância não só pela reconstrução histórica e vulcanológica, mas também para fins de proteção da população”, declarou ele em comunicado oficial. “Ele define que há uma altíssima periculosidade até mesmo no caso de fluxos vulcânicos muito diluídos, que não causam um grande impacto nas estruturas urbanas, mas que podem ser letais por causa da sua temperatura. Saber disso pode facilitar medidas mais eficazes de prevenção e mitigação [em locais afetados pelo vulcanismo].”

noticia por : UOL

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