Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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MUNDO

Cheiro da morte na maior chacina do Rio tem um aroma inédito que me paralisou

Desde as primeiras luzes da manhã, quando o sol tentava em vão colorir de esperança a silhueta da Serra da Misericórdia, eu estava lá. A Penha e o Conjunto de Favelas do Alemão já tinham amanhecido sob o peso da operação policial, em mais um dia em que a vida disse valer menos que a bala ‘’perdida’’ —ou a certeira. Mas o que vi, o que meus olhos e, sobretudo, meu olfato registraram, transcende qualquer relato prévio, qualquer manchete, qualquer luto.

Eu nasci no peito de uma viela, no coração da maior, a Rocinha. A morte, para mim, nunca foi uma entidade distante. Foi a vizinha de porta, a sirene da madrugada, o nome riscado da lista de presença. Convivi com o risco e a perda desde que me entendo por gente. A mira sempre esteve, de alguma forma, apontada para a gente. Mas o que se revelou na base da Serra foi um espetáculo de horror que nem a memória mais calejada poderia prever.

Não era a morte clínica do hospital nem a fria do IML. Era a morte trazida no calor do desespero. Eram corpos empilhados, trazidos do alto, em uma descida macabra e dolorosa. A dimensão era assombrosa. Não eram três, cinco. Eram dezenas. Uma fila, a mais longa e dolorosa que já documentei.

E o pior, a maior vergonha: não foram viaturas ou agentes do Estado que demoravam a chegar ou, pior, fingiam não ver. Eram crianças e jovens moradores da Penha, os braços magros e o olhar vazio, executando o serviço que é dever do Estado. A cada corpo que descia, enrolado em lençóis ou cobertores, ou mesmo jogado em carros improvisados, vinha junto o peso da omissão institucional. A comunidade, mais uma vez, era forçada a ser coveira, testemunha e vítima ao mesmo tempo. Era o Estado, em sua forma mais cruel, terceirizando o resgate dos seus mortos para aqueles que ele mesmo abandonou.

Aquelas mãos, que deveriam estar segurando livros ou bolas, agarravam membros frios, corpos violados, alguns com sinais de extrema violência, como marcas de facadas ou decepamento. A denúncia da tortura e da execução sumária era sussurrada entre o choro das mães, uma verdade sombria que contrastava com os discursos oficiais de “sucesso da operação”. A cena era um soco no estômago da sociedade: a vida preta e pobre sendo tratada como descartável.

E então, veio o cheiro. A morte tem cheiro. Eu sempre soube. Mas esta morte tinha um aroma inédito, uma concentração de dor e violência que me paralisou. Não era apenas o cheiro de sangue coagulado ou da decomposição inicial. Era um mix químico e emocional, que impregnava a roupa, a pele, a alma. O cheiro de pólvora recente, da guerra que levou à tragédia. O cheiro forte e rançoso da terra revolvida e da mata úmida, o rastro da caça e do desespero final.

O cheiro de luto não processado, um cheiro ácido, quase metálico, que emana da desesperança e do grito abafado das mães e irmãs que identificavam os seus, caindo de joelhos ao reconhecer um tênis, uma tatuagem. O cheiro de indiferença, que, ironicamente, é o mais sufocante. O odor da impunidade.

Quem é cria da favela é calejado, sim, pra vida inteira. Mas somos feitos de carne, osso e um coração que insiste em pulsar. Eu pensava que já tinha visto de tudo. Que a mira constante nos torna imunes ao choque. É uma mentira que contamos a nós mesmos para sobreviver.

Hoje, a morte me surpreendeu. Não por sua presença, mas por sua desfaçatez, sua exposição cruel. Ela chocou-me não como jornalista que documenta, mas como cria da favela que presencia o genocídio em escala industrial. Vi ali a falência moral e estrutural de um país que permite que seus filhos mais vulneráveis virem estatística e, pior, sejam removidos por outros filhos, com as mãos limpas, mas a alma suja de tristeza.



E então, veio o cheiro. A morte tem cheiro. Eu sempre soube. Mas esta morte tinha um aroma inédito, uma concentração de dor e violência que me paralisou

Lembro-me de operações anteriores, como o rastro de sangue deixado no Alemão em 2007, que chocou o país. Mas a dimensão desta, com dezenas de corpos trazidos do alto da Serra, faz um antes e depois. O que dizer quando a chacina é tão grande que os próprios moradores precisam virar rabecões humanos para que o mundo veja o que a mata escondeu?

A Serra da Misericórdia é, a partir de hoje, um memorial não oficial. Um marco de vergonha. E o cheiro… ah, o cheiro não sairá tão cedo das minhas narinas, nem da minha memória. É o lembrete fétido de que, mesmo para quem vive na mira, há sempre um novo patamar de horror a ser atingido. Há sempre uma quebra de tabu, até na morte.


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noticia por : UOL

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