Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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VARIEDADES

Como a ciência explica as enchentes no Rio Grande do Sul

Menos de
duas semanas após o início dos temporais que levaram às enchentes no Rio Grande
do Sul, o estado perdeu 100 vidas e teve 80% de seus municípios afetados — segundo
um boletim publicado na quarta-feira (8) pela Defesa Civil.

Quase um milhão e meio de pessoas tiveram suas rotinas perturbadas pela tragédia. Cerca de 164 mil foram desalojadas, 67 mil se encontram em abrigos e 128 estão desaparecidas.

Mas o que causa o fenômeno de tempo e clima? A Gazeta do Povo conversou com especialistas para trazer luz à questão. Eles convergem para o El Niño como a principal explicação e oferecem detalhes de outros fenômenos climáticos.

El Niño agravado pelo bloqueio
atmosférico

No século
XIX, pescadores do norte do Peru observavam um fluxo anual de água morna do Oceano
Pacífico que fluía para o sul. Como acontecia em torno da data do Natal, eles
chamaram o fenômeno de “El Niño”, literalmente “o menino”, em homenagem ao
menino Jesus.

Cientistas
peruanos mais tarde notaram que o fenômeno mais intenso associado às águas
aquecidas tinha um intervalo de vários anos e levava a enchentes sazonais
catastróficas em um litoral que normalmente era árido. A primeira ocorrência
registrada da anômala chuva do deserto foi em 1525, quando o colonizador
Francisco Pizarro chegou ao Peru.

“Esse
fenômeno tem como um dos impactos favorecer as chuvas acima da média na região
do estado gaúcho”, explica Desirée Brandt, sócia-executiva e meteorologista da
empresa Nottus, especializada em consultoria meteorológica para negócios.

As chuvas
atípicas e volumosas também atingem partes do norte da Argentina e o sul do
Paraguai e do Uruguai, como explica o meteorologista Leandro Cardoso.

“Desde os
últimos meses de 2023, testemunhamos um intenso El Niño, após anos de uma La
Niña persistente”, diz. La Niña é o outro lado do El Niño — nela, observa-se o
contrário, um resfriamento das águas de superfície do Oceano Pacífico.

Juntos, os
dois fenômenos são conhecidos como ENSO, sigla em inglês para “Oscilação Sul do
El Niño”. Essa oscilação, ligada a anomalias de temperatura, “altera padrões da
circulação global” da atmosfera, afirma Cardoso, “afetando os regimes de
precipitação (chuvas) e temperatura”.

Já se sabia
que um ano de El Niño está associado a mais chuvas no Sul e tempo seco no
Nordeste. “Várias das grandes secas históricas do Nordeste ocorreram em eventos
intensos de El Niño”, diz Cardoso. O maior volume de chuvas no centro-sul do
país “é típico de ocorrer neste cenário”.

Outro
fenômeno importante é o bloqueio atmosférico. “A
forte massa de ar seco na região central do Brasil está ajudando a represar o
avanço de frentes frias sobre o sul do país (daí bloqueio), contribuindo para
as instabilidades que formam as pesadas nuvens de tempestade e canalizando a
umidade vinda do norte para o RS”, afirma Brandt.

“Aliado a isso, as águas mais aquecidas do Atlântico
colaboram para a disponibilidade de umidade para os eventos de chuva.”

De acordo com Cardoso, bloqueios atmosféricos no
centro e leste do país não são raros, ocorrem em diferentes estações ao longo
do ano. “Desde meados de abril há uma intensa massa de alta pressão em baixos e
médios níveis sobre o Sudeste, bloqueando o avanço de sistemas frontais.”

Ou seja, frentes
frias do Sul, que acabam ficando por lá. “Os sistemas frontais que atuaram a
partir do dia 25 de abril foram confinados ao Rio Grande do Sul e ao sul de
Santa Catarina, com menor influência sobre o sudoeste do Paraná”.

Outros fenômenos trouxeram a “tempestade perfeita”

Concordando
com Desirée Brandt, Leandro Cardoso também acha relevante que o aquecimento do
Atlântico que banha o Uruguai e o Rio Grande do Sul, de cerca de 1,3º acima da
média, além do bloqueio, formou uma concentração de água na atmosfera local chamada
pelos meteorologistas de “Zona de Convergência de Umidade” (ZCOU).

“Formou-se
uma ZCOU não muito bem-organizada e nem muito intensa, que fez escoar a umidade
da Amazônia até o oceano, passando pelo sul do Paraguai e centro/norte do RS”,
diz o especialista.

Para ele, o
problema não é tanto a intensidade da chuva, mas sua persistência, “que ao
longo dos dias mostra-se significativa”.

A água que
se vê agora preenchendo as ruas do Centro Histórico de Porto Alegre normalmente
é espalhada pelo país, mas foi retida por lá pelo bloqueio. Além disso, há fenômenos
locais de ar em baixa pressão, chamados “cavados”, que pioraram a situação.

“Quando
coincidem elementos corriqueiros que, sozinhos, não são notáveis, mas que
juntos propiciam um cenário atípico, é comum chamarmos de ‘tempestade
perfeita’. Outros diriam ‘azar’”, afirma Cardoso.

O aquecimento global tem
algo a ver com isso?

Enchentes
catastróficas são velhas conhecidas da humanidade, como prova o antiquíssimo
Épico de Gilgamesh, a história de um dilúvio escrita na língua dos acádios na
Mesopotâmia mais de seis séculos antes de Cristo.

Elas assolam a vida de povos que se estabelecem às margens de rios portentosos. Além do Tigre e o Eufrates, observam-se enchentes também no Mississipi, nos Estados Unidos, com eventos notórios em 1974 e 1993.

“O Rio
Grande do Sul é bordeado pelo Rio Paraná, que inclusive hospeda a maior e mais
volumosa queda d’água do mundo”, diz Cardoso. “Não espanta que uma vez a cada
número de décadas ocorram ‘tempestades perfeitas’, como é o caso em outros
cantos do mundo”.

Nos casos
dos rios em torno de Porto Alegre, como o Guaíba, foram oito décadas desde o
último evento com a magnitude da enchente atual.

Para Brandt
e Cardoso, o aquecimento global participa ao injetar mais energia nesse padrão
esperado. “Ainda é cedo para dizer se este evento é um caso fora da curva”, afirma
Brandt.

“Estamos
presenciando as alterações provocadas pelas mudanças climáticas. Pode-se
afirmar que esse extremo é um efeito do aquecimento do globo, inclusive
explicitado no relatório mais recente do IPCC [Painel Intergovernamental das
Mudanças Climáticas, ligado à ONU], que já indicava que o aumento das chuvas na
região Sul do Brasil era um dos efeitos das mudanças climáticas”.

O documento
elabora que a expectativa é de aumento das chuvas na região. Brandt faz a
ressalva de que “os volumes registrados neste evento podem não ser tão recorrentes,
mas os gaúchos devem se preparar para a maior frequência de eventos que deverão
trazer transtornos”.

Cardoso é
um pouco mais cético a respeito de vincular as enchentes específicas de 2024 no
Rio Grande do Sul ao aquecimento global: “Eventos de tipo severo ocorrem desde
que o mundo é mundo”, diz.

“Não é
preciso vinculá-los ao aquecimento global, até porque é bastante difícil
estudar a causalidade desses eventos com novos padrões persistentes de
circulação atmosférica.”

Segundo
ele, deve haver cautela em afirmar conexões causais, pois “mudanças climáticas
são, como o nome diz, climáticas (em oposição ao tempo), e tendem a se
manifestar como alterações recorrentes ou persistentes, não como eventos
isolados”.

Mas Cardoso concorda que o aquecimento “de fato tende a injetar mais energia e umidade no sistema, permitindo maior frequência de eventos do tipo”.

“Não é seguro, também, descartar gratuitamente a influência do aquecimento global na recorrência dessas ‘tempestades perfeitas’.”

Para ele,
se a tragédia se repetir em poucos anos, dois ou três, isso corroboraria o
papel das mudanças climáticas.

O clima é
como a personalidade de uma pessoa, e o tempo é como o seu sentimento em um
dado momento. Se uma pessoa tem um arroubo de raiva, chora, ou ri, isso pode
ser algo isolado ao momento e às causas imediatas, ou pode ser um reflexo de
padrões mais gerais de sua personalidade.

A analogia
é séria, já que o modelo principal da personalidade adotado hoje na psicologia,
o “Big 5”, leva em conta fatores como “neuroticismo”, que é a propensão de uma
pessoa a manifestar emoções negativas, algo que só se observa sistematicamente.

Não foi surpresa. Como
fazer melhor?

Os dois
meteorologistas afirmam que a tempestade foi bem prevista e o Brasil pode fazer
melhor.

“Com relação à prevenção, um bom exemplo é o Japão”, diz Brandt. “O país possui um sistema de alerta precoce de eventos ativo há muito tempo, devido aos fenômenos naturais a que está sujeito, como tufões e terremotos.”

Inclusive a
própria ONU já está levando este exemplo em conta em suas recomendações.

“Diversos
alertas foram emitidos”, segundo Cardoso, “por diversos órgãos estatais de
monitoramento e previsão, além de empresas privadas de meteorologia”.

“De maneira alguma o que ocorreu foi uma surpresa, ainda que a magnitude e os desdobramentos não tenham sido compreendidos de antemão”.

Para ele, “seria muito interessante investigar por que a resposta do Estado (nos três níveis) foi e ainda está sendo tão precária”.

noticia por : Gazeta do Povo

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