Da Redação – Jonas Mendes
Uma introdução ao conceito da Kenosis à luz de Filipenses 2.5-8
Quando levantamos a discussão sobre a temática da humilhação do Redentor, logo nos vem à mente o texto de Filipenses 2.5-8, que diz:
“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8)
Ao escrever à igreja de Filipos, Paulo queria corrigir alguns erros. Alguns cristãos haviam sido tomados pela vanglória, eles estavam preocupados com a sua própria imagem, como se isso fosse a única coisa que importasse, estavam buscando afirmar os seus direitos em detrimento do direito dos outros cristãos, e se consideravam superiores aos demais irmãos. Craig S. Keener afirma que “a competição pela honra era intensa na sociedade romana. Filipos, longe de ser exceção, era uma cidade em que o fenômeno – da busca pela glória pessoal – era ainda mais pronunciado” (Comentário Históricocultural da Bíblia, 2017, p. 669). Diante de tal cenário, em que as disputas e reivalidades, bem como o desejo de se mostrar superior ao próximo, eram constantes, Paulo vai destacar que Cristo havia feito justamente o oposto do que muitos da comunidade estavam fazendo. Paulo diz enfaticamente que Cristo, mesmo sendo em forma de Deus (gr. Morphé theou), não teve por usurpação ser igual a Deus. A terminologia paulina “em forma de Deus” (ἐν μορφῇ Θεοῦ), tem uma relação direta com a fraseologia de Colossenses 1.15: “a imagem de Deus” (εἰκὼν τοῦ Θεοῦ). A palavra “morphé”,refere-se à aparência externa da substância divina, isto é, a divindade do Cristo pré-existente na exibição de sua glória de ser a imagem do Pai, e contrasta com o termo “esquema” (σχήματι) usado por Paulo para se referir a “forma de homem”, que dá a ideia de condição. Enquanto a palavra “morphe” (forma) se refere ao aspecto da divindade do Cristo pré-encarnado, a palavra “Esquema” (também traduzida por forma) era usada para falar de um rei que mudava sua roupa real por uma roupa de pano de saco, e é justamente esse ato que representa a kenosis, o esvaziar-se e assumir uma forma de servo. (RIENECKER, Fritz; ROGER, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento Grego, 1995, p. 408). Ao comentar sobre a relação entre os termos “morfe e esquema”, Willian Hendriksen diz “que nos respectivos contextos morfe ou forma se refere àquilo que é anterior, essencial e permanente na natureza de uma pessoa ou coisa; enquanto esquema ou condição aponta para seu aspecto externo, acidental ou aparente”. (Comentário do Novo Testamento: Efésios e Filipenses, p. 473).
No texto de Filipenses 2.5-8, que citei acima, existem duas palavras gregas que são importantes para a temática da “humilhação”. A primeira, é a palavra Kenosis (Verbo Gr:ἐκένωσεν) que pode ser traduzida como “esvaziamento”; e a segunda, Tapeinosis (Gr: ἐταπείνωσεν) que é traduzida como humilhação, rebaixamento, “tornar baixo, trazer para baixo, (a) trazer para a terra, nivelar, reduzindo a plano, como em Lucas 3.5” (VINE, Dicionário, 2002, p. 697). As duas palavas caminham juntas, pois atrelado ao conceito de humilhação, na perícope em questão, está o de esvaziamento. A palavra Kenosis já foi alvo de muitas teorias que acabaram negando a divindade de Cristo, dizendo que a Kenosis é, na verdade, o esvaziamento de seus atributos divinos, que ao se tornar homem, Jesus deixou de ser Deus, o que de fato, se constitui como uma heresia típica da teologia liberal do século XIX e XX, e que tem implicações extremamente perniciosas à cristologia Cristã e, consequentemente, à soteriologia. Ao tratar sobre a kenosis (esvaziamento) de Cristo, Donald Macleod, em seu livro “A Pessoa de Cristo” (2007 p 227- 228), diz que “Nenhuma cristologia pode ignorar o fato de que Cristo “esvaziou-se a si mesmo” (Fp 2.7), ou que, sendo rico, ele se fez pobre (2Co 8.9). Como Donald Mackinnon coloca, “é a noção da kenosis, mais do que qualquer outra noção particular, que indica o senso mais profundo do mistério da encarnação”. Ao dizermos que Cristo “se esvaziou” (ἐκένωσεν) não estamos dizendo que Ele se esvaziou da sua divindade, ou que Ele deixou de ser o que Ele era – Deus – mas sim, que Cristo se colocou na posição de alguém que ficou, por algum tempo, sem honra devida neste mundo. Cristo foi tratado, entre os homens, como alguém que não era visto no fulgor da glória divina. Embora ele tivesse, mesmo aqui neste mundo, todos os atributos próprios de sua divindade, sua divindade não foi inequivocamente manifestada, de modo que todos os seus atributos fossem vistos pelos homens de maneira incontestável. A bíblia apresenta, inclusive, inúmeras situações em que Jesus foi desprezado e imcopreendido. Ele foi chamado de beberrão e comelão (Mt 11.19); os fariseus diziam que ele operava milagres pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios (Mt 12.24); até mesmo o seus irmãos zombavam dele, pois não acreditavam nele (Jo 7.5); muitos dos seus parentes queriam o prender porque achavam que estivesse louco (Mc 3.21).
Ao tratar da temática do esvaziamento e da humilhação do Redentor, Paulo queria mostrar aos irmãos da igreja de Filipos, que Cristo, sendo divino, renunciou à posição de honra que lhe era de direito (KEENER, 2007, p. 669); que embora, possuindo todos os direitos advindos de sua divindade, não se apegou a isso, mas esvaziou-se a si mesmo tomando a forma de servo, e como servo ele abriu mão de sua posição, de seus privilégios, da glória que tinha junto do Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5). Como servo ele lavou os pés dos discípulos (Jo 13), como servo ele veio para servir e não para ser servido, e dar a sua vida pelos outros (Mt 20.28). Paulo vai mostrar que o único que poderia se apegar aos seus direitos e prerrogativas era Cristo, mas ele não se apegou aos seus direitos e pelo fato de ter se “esvaziado” (ἐκένωσεν), e se “humilhado” (ἐταπείνωσεν), Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor (ΚΥΡΙΟΣ), para glória de Deus Pai. O Senhor encarnado decidiu adentrar no palco da história da humanidade, à semelhança de uma epifania; o Deus, pai da eternidade, de alguma maneira, se submeteu ao tempo, na encarnação, e se tornou Deus conosco – Emanuel. O Senhor Deus da glória, Criador de todas as coisas, aceitou a condição de servo, como alguém destituído de direitos e privilégios na sociedade de seu tempo, e caminhou por esta terra como um simples galileu. Hendriksen observa de forma explêndida que Ele – o Cristo –, “Do infinito sideral de eterno deleite, na própria presença do Pai, voluntariamente ele desceu a este reino de miséria a fim de armar sua tenda, por um pouco de tempo, com os pecadores. Ele, em cuja presença os serafins cobriram seus rostos (Is 6.1-3; Jo 12.41), o Objeto da mais solene adoração, voluntariamente desceu a este mundo onde foi “desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.3). (Comentário do Novo Testamento: Efésios e Filipenses, 2004, p. 478)
Paulo mostra que aquilo que Cristo poderia ter usurpado (harpagmos), ou seja, o privilégio de se apegar ao seu direito, Ele entregou, e aceitou justamente o oposto, uma vida de total dependência do Pai como um filho obediente (Hb 5.8-9), e por isso, porque se esvaziou (Kenosis), Deus o exaltou soberanamente. Paulo queria mostrar para a igreja que estava em Filipos, que Cristo é o exemplo perfeito de humildade, pois em nenhum momento buscou fazer a sua vontade, mas a vontade de seu Pai (Jo 6.38) e seu exemplo devia ser seguido pelos cristãos filipenses. O exemplo de Cristo, citado por Paulo, “é um apelo aos leitores a se desfazerem da rivalidade, vanglória e coisas semelhantes, e tomarem para si a mente de Cristo, que é repleta de humildade e infinita condescendência” (WYCLIFFE, Dicionário Bíblico, 2007, p. 1125).
Na carta, Paulo cita quatro exemplos de humildade que deveriam ser seguidos pela comunidade. O primeiro exemplo é o do próprio Cristo, que sendo Deus se fez homem, se esvaziou (Fp 2.5-8). O segundo exemplo é o de Timóteo. Paulo diz que esperava enviá-lo aos filipenses porque, Paulo vai dizer: “a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado; porque todos buscam o que é seu e não o que é de Cristo”. Timóteo à exemplo de Cristo, não buscava o que lhe era próprio, mas havia dedicado sua vida a servir ao Senhor e aos irmãos (Fp 2.19-23). O terceiro exemplo é o de Epafrodito, que não media esforços para ajudar Paulo e a igreja de Filipos (2.24-30). O quarto exemplo é o de Paulo, que segundo ele, embora fosse judeu, da tribo de benjamim, alguém proeminente no judaísmo, reputou tudo por perda para ganhar a Cristo (Fp 3.4-9). E porque ele seguiu o exemplo de Cristo e não buscava aquilo que lhe era próprio ele podia dizer: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam” (Fp 3.17).












