Cuiabá/MT, 7 de março de 2026.

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No Níger, presença da França é considerada neocolonial e imperialista, avalia especialista

Então, fica cada vez mais difícil para a junta manter-se no poder, pois não é uma nação que dispõe de reservas financeiras. Porém, uma intervenção militar seria catastrófica, pois poderia desencadear uma guerra civil ou mesmo uma guerra regional, dando força aos extremistas, a quem interessa o enfraquecimento das instituições republicanas e laicas, para imporem a charia. 

Qual o papel de Burkina Fasso e Mali nesse golpe?

A princípio, esses dois países não jogaram um papel relevante no golpe em si, mas já se manifestaram dizendo que, caso a CEDEAO realmente leve adiante uma intervenção militar, eles lutariam ao lado de Niger. Isso torna a intervenção muito mais complexa e improvável.

Em 30 de julho, manifestantes arrancaram a placa da embaixada francesa na capital nigerina, Niamei. A placa foi pisoteada e substituída por bandeiras russas, hasteadas no edifício. Como explicar isso?

Durante anos, a França, ex-potência colonial, tornou-se indesejável no Sahel, região que se estende do Senegal ao Chade. O exército francês foi expulso de Burkina Faso e do Mali. Já a Operação Barkhane, lançada em 2014 para combater o terrorismo, foi forçada a recuar para o Níger no verão de 2022. Aproveitando a situação, a Rússia vai expandindo sua influência e apresentando-se como um parceiro ideal em termos políticos, econômicos e de segurança. 

Lembremos que em plena Guerra Fria, Moscou treinou muitos líderes e elites africanas. No Níger, Abdou Moumouni Dioffo, membro fundador do Partido Africano da Independência, formou-se na União Soviética. Esse apelo, que sempre existiu, foi agora bem explorado pelos militares. Uma das provas disso é de que distribuíram entre os manifestantes bandeiras russas. 

Por outro lado, os jovens, pouco conhecem sobre a França, mas eles veem seus soldados e suas bases militares nas cidades e nos vilarejos. Algumas declarações desdenhosas dos líderes franceses tampouco ajudam. Em 2017, Emmanuel Macron, por exemplo, declarou que a África enfrentava um desafio “civilizacional”. 

A presença francesa é, portanto, considerada neocolonial e imperialista. Para os jovens com formação acadêmica, mas sem nenhuma perspectiva de trabalho, ela seria responsável por todos os problemas existentes – pobreza extrema, fome, corrupção e avanço do extremismo islâmico, que deveria combater, mas não o faz. Esse repúdio pode ser pensado como uma espécie de segundo movimento de independência, com raízes no desejo de emancipação face ao antigo colonizador e às potências ocidentais.

De qualquer jeito, a juventude está em ruptura com os seus dirigentes, pelo menos na África negra francófila. Numa ponta temos as redes socais, que funcionam como amplificadores desse sentimento, e, na outra, um sistema político que não está à altura dos anseios da população. 

A frustração é evidente com os governantes que apostam num jogo duplo, na tentativa de permanecer nas boas graças da opinião pública. Assim, se no passado aproveitaram-se dos laços que mantinham com os antigos colonizadores, agora, face ao descontentamento da população, eles surfam na onda, proclamando-se contra a França e gabando-se da amizade com a Rússia. Eles agem sempre na direção em que o vento sopra, de maneira perversa e sem escrúpulos. 

Que medidas a França vai tomar perante o golpe?

Em primeiro lugar, acho que foi um erro repatriar os cidadãos franceses, porque eles não corriam perigo, visto que não há uma animosidade contra eles. A medida constitui, na realidade, uma jogada política. Agora, os 1.500 soldados franceses e os mil norte-americanos precisam permanecer. 

Níger tem uma longa fronteira com o deserto. Se eles partirem, os extremistas islâmicos vão rapidamente tomar posse desse território. Então, ainda que vistos por muitos como uma força de ocupação, os soldados têm que continuar ali para manter a estabilidade contra o avanço dos grupos terroristas. 

Paralelamente, reina também uma confusão que contribui para a incompreensão da verdadeira função das tropas francesas no Níger. Havia acordos militares que datam da época da descolonização, mas que muitas vezes são ignorados. Então, quando o Níger é atacado por um exército de um país aliado da França, seus dirigentes cruzam os braços, mas quando lhes interessa, eles tomam providências. 

Então, por suas atitudes de “dois pesos e duas medidas”, a política francesa contribuiu para levar desconfiança à opinião pública. Portanto, creio que a França precisa se reinventar no contexto das suas relações com a África. É necessário implementar, na cabeça dos militares e dos políticos franceses, uma revisão do espírito colonial para tentarmos construir algo diferente do que existe hoje em dia.


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noticia por : UOL

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